sábado, 10 de abril de 2021

Fuligem

 


Embora não fosse deixar rastros de pólvora atrás de si, a cadela chamar-se-ia Fuligem, assim quis a "mãe" antes de conhecê-la. Dir-se-ia deste modo que era uma cruz o que a cadelinha carregaria para sempre, na delicadeza de pelo, finesse de porte e elegância do andar; em outras palavras, uma verdadeira dama, e o que a sua dona sentia desde já não era dor, era a tensão do mundo sobre os seus ombros com batismo tão impróprio.

Batizou-a antes de recebê-la de algum lugar distante embalada em caixa de papelão com fitinha de presente. Arrependeu-se na hora do batismo antecipado. Mas você bem sabe como é difícil trocar o nome depois do batismo, não há tabelião que o faça sem burocracia. E o telefone não parava de chamar perguntando-lhe se Fuligem já tinha chegado. Mãe, irmãos, primos, sobrinhos, colegas de trabalho e amigos sabiam que Fuligem, com poucos dias de nascida, estava chegando com dia e hora marcados. 

E a "mãe" respondia a todos com a mesma solicitude dizendo-lhes que não, que estava aguardando tão ansiosa quanto eles, enquanto andava com o telefone sem fio colado ao ouvido pelo meio da casa. 

Já sentia o sorriso sarcástico de Teca, sua irmã, como sempre irreverente, gozadora, a mão direita a segurar o cigarro a dizer-lhe:

– Onde já se viu batizar um cão antes de conhecê-lo, mulher? É pela cara que a gente batiza, dá o nome. Cachorro não é gente, não, que mal foi concebido a gente bota trezentos nomes na mesa para escolher um.

E ela sabia. Teca a chamaria de Fuligem só de pirraça, sempre com o sorriso de escárnio, ainda que a "mãe" depois desse sufoco criasse coragem para trocar-lhe o nome.

E agora, mais do que nunca, o corpo pesado, parecia que a "mãe" tinha voltado da guerra, e estava tão desesperada com a escolha do nome que, andando pela casa sem rumo, esbarrou num móvel e derrubou o primeiro cristal no meio da sala, depois outro e mais outro, e tímidas gotículas de sangue brotaram dos seus pés descalços, depois do seu útero como se ela tivesse parido aquela cadelinha tão fofa ainda recolhida à caixa de papelão, rosnando baixinho, sem forças para dizer que queria a liberdade, o ir e vir pela nova casa, pouco se importando com o seu nome de batismo. O que ela queria era respirar o ar livre, correr e brincar. A viagem fora longa! 


(José Carlos Sant Anna)



9 comentários:

  1. Também me parece que a cadelinha "queria a liberdade, o ir e vir pela nova casa, pouco se importando com o seu nome de batismo. O que ela queria era respirar o ar livre, correr e brincar". Mas compreendo que a "mãe" depois de a ver assim fofinha tivesse vontade de mudar o nome.
    Que história tão bonita e com o seu toque estético! Gostei muito.
    Muita saúde, meu Amigo José Carlos.
    Obrigada pelas tantas e sensíveis palavras que deixou no meu "Ortografia".
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. Que tierna imagen del perrito en tus letras que va de un lado a otro repartiendo caricias.... Saludos.

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  3. Meu Deus, que estranha madrinha de cadelinhas?! Ninguém merece!
    Minimizando a criatura algo sinistra, até é um conto divertido pelo ridiculo da situação...
    Gosto de o ler, JCarlos. Precisa dedicar-se mais aos 'blogs'... (Desculpe a insistência, mas a intenção é a melhor.)

    Ainda em recesso pascal, mas regressando ...
    Uma boa semana para si e seus. Abraço, Amigo.
    ~~~~~~~~~~

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  4. Caro amigo Sant'Anna, digno professor e poeta, para quem é 'cachorreiro' como eu já na metade desta bela crônica, cheguei a ver a Fuligem deitada junto à mesa onde escrevia.
    De minha parte, metendo-me onde não devia, deixo minha sugestão: Fuligem é um belo e simpático nome, que deverá ser muito feliz no seu novo lar.
    Uma boa semana,
    grande abraço.

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  5. Adianto que "Fuligem" deve ter nascido da pirraça que ela (fuligem) faz com a gente, embora a cadelinha seja linda e doce. E a nossa viagem é tão curta para ligar aos pormenores do nome! Preferimos sair e voar, como a Fuligem, como este gostoso texto.

    Beijos, meu amigo José Carlos.

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  6. Dizem e eu acredito que há um parentesco entre os homens e os bichos.
    E, como gosto deles! Da mesma forma que escolhemos os nomes dos filhos sem saber que vão gostar, fazemos com os nossos bichinhos.
    Gatos e cães nunca se dão muito bem_ mas acredito na amizade da Fuligem com a minha Pitty :)))
    Gostei do conto Jcarlos
    Bom fim de semana, com abraços meus.

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  7. ainda que por engano, ou mera distração, os/as "Ferrugens"
    desta vida, de vez em quando sobem aos salões...
    e, então, temos "doideira" pegada!
    e bem gratificante

    excelente naco de prosa, caro José Carlos

    grande abraço

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  8. Eu gostaria de ter uma Fuligem pertinho de mim para amenizar esses tempos bicudos e dividir comigo suas alegrias, essas mesmas que eles mostram 24 horas, não devem saber o que é medo de ter medo ou o medo que se instalou e não tem remédio que o cure!
    Beijinho na Fuligem, daqui do sul!
    Beijo, professor!

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  9. CAro amigo JCarlos

    você caprichou demais neste texto.
    Fuligem mas que nome!
    bem mas, que eu me deliciei a ler isso é verdade.
    beijo grande para você

    ;)

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