sábado, 24 de abril de 2021

Não é por acaso


Por acaso,

eu brincava com a carne do sol

e o pirão de leite

em contrabando pelos morros

e o gelo nas artérias

 

e brincava

remexendo no caldo fundo

da cidade que se esfalfava

na avenida de Contorno

e adjacências na hora do rush

 

por acaso,

eu brincava em diversos ângulos

na insensatez da brutalidade

urbana sem cuspir fora

o sumo

 

e brincava

como se não houvesse mais o que fazer

já que o mundo se esboroa

dentro ou fora das bordas

antes de cobrir com as mãos o meu rosto

 

Por acaso,

acabaram as brincadeiras

 

e já enxergo sem rédeas o terreno fértil

para dizer-lhes que o mundo precisa

dar um basta

aos estupros coletivos e cotidianos

 

que rolam pelas ruas das cidades,

antes de limpar as manchas vermelhas,

nos tapetes a qualquer hora do dia.

 

E não por acaso

no ponto de ônibus a minha voz

é um fruto amargo sob um sol poeirento.

 

(José Carlos Sant Anna)


14 comentários:

  1. O video mostra-se indisponível. O Poema é fascinante. Sublime, poeticamente falando. Gostei muito de ler.
    .
    Feliz fim de semana
    Abraço poético
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. Agora sim. Música lindíssima. Gostei muito

    Deixando um abraço

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  3. 'E não por acaso',Jcarlos
    _" que o' passarinho muda o seu ninho, e os amantes mudam o que sente/ o sol muda sua rota quando a noite aparece e a planta se veste de verde na primavera'...
    Confiemos que o fruto amargo se adocique, não por acaso.
    Só que muitas vezes não conseguimos explicar nada ,as coisas são esses amontoados de probabilidades e quase sempre 'por acaso as brincadeiras acabam' .Aí, é meio triste. rs
    Muito bom te ler_ sempre.
    meu abraço, com um bom domingo.

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  4. Não, não é por acaso que brincamos como se não houvesse mais que fazer. Mas quando acabam as brincadeiras a inocência que era nossa, começa a morrer dentro de nós como se um fruto amargo a substituísse e mostrasse ao nosso olhar quão inquietante é o mundo em que vivemos.
    Cuide-se bem, meu Amigo José Carlos.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  5. Não é por acaso que o mundo atravessa períodos ainda mais caóticos, que a inocência desapareceu porque a infância foi embora. Ergueram-se mais e mais bocas ávidas sem o mínimo discernimento que tudo acabará logo, ‘eles’ não pensam nisso, embora sabem muito bem a diferença do certo e do errado. E o mundo que vivemos continua, cada vez mais, com um perfume mais fétido. E é nessa roda temos de dançar. E sobreviver.
    Belíssimo poema, professor, um grito de indignação.
    O vídeo é maravilhoso, sempre. Adoro o "Gracias a la vida"
    Uma boa semana, José Carlos, cuide-se, também, porque o mar não está para peixes.
    Beijo, amigo.

    "E não por acaso
    no ponto de ônibus a minha voz
    é um fruto amargo sob um sol poeirento."

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  6. Olá, José Carlos, um poema de placa. Depois da minha leitura deste teu excelente poema assaltou-me uma dúvida: será que somente os poetas conservam a criança que trazem dentro de si?
    No meu entender são eles os privilegiados, pois seus espíritos nunca envelhecem. Parabéns, poeta!
    Uma excelente semana com saúde.
    Grande abraço.

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  7. Amigo, José Carlos,
    Estou emocionada, o seu poema tocou-me bem fundo, porque o senti.
    Quando deixamos a nossa criança de lado e vemos a realidade crua e nua que nos envolve, não é por acaso, que nos sentimos sós e perdidos neste mundo apático e cruel.
    A excelente voz de Mercedes de Sosa, completou o seu poema.
    Obrigada!

    Beijinho, continuação de feliz semana.

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  8. O gosto acerbo das palavras, submetido à alquimia do lirismo, transmuta em poesia aquilo que fica, daquilo que partiu, que terminou...

    :)

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  9. JCarlos

    profundo este poema. o passado que nos lembra a criança que existe ainda entre nós. o presente onde o mundo anda tão desnorteado e confuso.

    beijinhos Caro Amigo Poeta

    :)

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  10. Um dia seremos de novo crianças
    Abraço

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  11. "por acaso
    acabaram as brincadeiras..."

    por acaso? não creio!...
    mas porque o Mundo,
    com seus estupros e manchas vermelhas,
    não está para crianças!

    abraço fraterno

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  12. Após ler esse belo poema, fiquei a pensar na criança que dorme em nosso interior, por descuido e desatenção nossa. Justamente a nossa melhor parte.
    Parabéns , poeta, gostei muito!!!

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  13. Um poema forte e acutilante. Remexe onde mais dói.
    Tive o som do meu computador avariado e não quis comentar sem ouvir a excelente voz de Mercedes Losa. Também ela agudiza a dor de uma forma musicalmente cálida.

    Meu amigo José Carlos, eu não poderia perder o estrondo desta publicação.

    Beijos.

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