sábado, 15 de maio de 2021

Coisas estranhas

Coisas estranhas só acontecem comigo e elas têm um rosto, o que pode parecer ainda mais estranho é que este rosto está sempre com um ar exultante a me seduzir, a pegar-me pelas mãos e a levar-me a passear por avenidas e parques. Daí porque é mentira dos que andam a dizer por aí que as coisas estranhas ferem. Enganam-se. Os espinhos, sim. E sangram. 

Na casa de minha avó tinha um espelho grande na sala. Foi lá que eu descobri pela primeira vez que as coisas estranhas não saiam da minha cabeça. Sim, eu já me entendia como gente, é preciso que você saiba, meu caro leitor, mas não contei nada sobre este buraco negro na camada de ozônio que eu tinha descoberto ao caso a qualquer pessoa. Você é o primeiro a sabê-lo. 

Na dúvida, o que poderiam pensar da minha bravura ou da minha covardia, se eu contasse esta presunçosa bravata? Não, daqui já se ouve um farfalhar estranho, e ninguém é de ferro. O melhor é prevenir do que ouvir o realejo chamar ou se abrir a boca para se fechar os ouvidos.

Bem, é preciso dizer-lhe que não era a mim que o espelho refletia, e sim as coisas estranhas que não saíam da minha cabeça. 

Nunca via o meu rosto refletido no espelho. Sempre via muitas coisas estranhas ao mesmo tempo. Uma dessas coisas estranhas marcou para sempre a minha vida, embora eu não tivesse fugido para bem longe ao vê-la tão fagueira diante de mim. 

Era um homem em decomposição que ainda gargalhava sem fazer barulho, creiam. Minto. Ele franzia a testa e piscava o olho. Minto outra vez. Ele fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Assobiava e chupava cana. Ainda hoje não sei se ele piscava aquele olho azul para mim, ou se era um sestro, uma mania, que o processo de decomposição ainda não subtraíra da sua vida. 

Sou um para-raios de coisas estranhas. Somente ontem, ao ouvir a levada do rock na hora do reggae, eu descobri que esse bicho que não sai da minha cabeça não apareceu pela primeira vez no espelho da casa da minha avó.

Meu erro tem sido dar tanto peso a essa carga abjeta que me acompanha pela vida afora como se fosse um amuleto. 


(José Carlos Sant Anna)

 


 

 


8 comentários:

  1. rsssss, maravilha de texto, coisa estranha mesmo!! Fui descendo a tua crônica e imaginando, sim, o filme vai desfilando na minha cabeça, coisa estranha?
    Ser muito estranho que vemos ao chegar no espelho, eu também lido com eles. E comigo!!! rss
    Sim, José Carlos, eu acredito que você foi o primeiro a ver o buraco negro na camada de ozônio, fica calmo, eu acredito! Tenho imenso orgulho em saber! rss
    Um ótimo fim de semana, sem descobrir mais coisas!
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  2. Un gusto leerte. Cosas extrañas aveces nos pasan- Saludos amigo.

    ResponderExcluir
  3. lol. Gostei muito de ler. Divirti-me imenso. O meu espelho também me engana muitas vezes, Diz-me todos os dias que estou mais velho um dia, como se eu não soubesse. Qualquer dia dou-lhe uma cabeçada... devagarinho, sem violência, lol
    .
    Abraço fraterno.
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

    ResponderExcluir
  4. Nem me fale de coisas estranhas , basta as triviais me assombrando... esqueça o espelho da casa da vózinha, JCarlos (meninos são mesmo muito medrosos), rs
    _seja o 'caçador de si mesmo' _fuja das armadilhas, fecha o olho, amigo rs Costumo dormir de luz acesa quando sinto algo estranho e durante o dia com o noticiário escabroso nada mais me assombra_ apenas uma certa tristeza principalmente, quando o assunto é criança.
    Agora, possivelmente vou lembrar dos seu monstrinho sempre que olhar meu espelho e sei lá, obrigada mas a insônia vai aumentar rs
    Tudo de bom,fique feliz na semana que segue e grande abraço Jcarlos

    ResponderExcluir
  5. O espelho convida a uma leitura profunda. Interrogamo-nos. Sentimo-nos estranhos. Confesso que vou tendo cada vez mais dificuldade em entendê-lo. Talvez a música reggae ajude. E o espelho da avó também.

    Magnífico texto, meu amigo José Carlos.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  6. Diz a lenda que nunca nos vemos quando em frente a um espelho, mas vemos "aquele" ou "aquela" de quem vivemos a fugir , ou a procurar. De acordo com o psicanalista Jacques Lacan é o nosso inconsciente que vemos refletido no espelho. Já a grande Cecília Meireles queria saber em que espelho ficou perdida
    a sua face.
    Poeta , o seu texto é altamente instigante , pois ao lê-lo várias ideias me vieram a mente. Estranho, é essa capacidade que os poetas e escritores possuem em mexer com nosso mundo íntimo, nos fazer pensar, questionar, sair da zona de conforto. Muito estranho esse poder!!
    Mil parabéns, amigo. Encantada.
    Beijos naturais, sem nenhuma estranheza, certo ?

    ResponderExcluir
  7. Coisas estranhas. Na casa dos avós acontecem mesmo, pois a nossa imaginação é prodigiosa. Mas agora há tanha coisa estranha por esse mundo fora e nem precisamos de as imaginar.
    O seu texto é, como sempre, um prazer de leitura que nos faz pensar. Sei que por trás de cada palavra há um rosto e uma voz que nos inspira.
    Cuide-se bem, meu Amigo José Carlos.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

    ResponderExcluir
  8. Olá, amigo José Carlos,
    uma leitura muito agradável, principalmente para quem está acostumado com o fabuloso Kafka, que é o meu caso. Então, caro Sant'Anna, a leitura correu muito bem sobre esses trilhos, pois, como disse, essas coisas estranhas que aparecem no espelho deram-me prazer semelhante na sua leitura já que A metamorfose e O abutre, entre outras obras Kafkianas ensinaram-me que é uma leitura das mais agradáveis. Espero, caro José Carlos que a comparação ao Kafka não seja recebida com desagrado. Parabéns!
    Uma boa semana, com saúde e paz.
    Grande abraço.

    ResponderExcluir