sábado, 1 de maio de 2021

Do caderno de Tão Preto II

 



Só a metade na dança das tuas marés. Das tuas palafitas. Conformado. Paciente. Destemido. Da cor de todas as cores. E sobre ausência, nada. Não diga nada. Nada sobre a ausência, sentida, pressentida, Tão Preto. Nada. E não se esqueça agora das promessas do passado ao fazer a barba; não se esqueça do menino olhando para dentro de você ao passar a lâmina na pele do seu rosto, enquanto, íntegro, inspecionas pelo espelho o telhado da minúscula casa, envolta em jardins, feita de palitos de fósforos, que enfeita sua mesa e sua vida. Esqueça as imagens distorcidas à procura de um foco. E nada de bolhas de sabão, esse tempo já passou, menino; passou; nada de sair tropeçando pelas esquinas, a ordem é manter o prumo e não deixar nada para trás; nada a apagar-se; se tudo está resolvido dentro do seu peito, esqueça o despertador e esqueça também seu tio Osvaldo apertando o nó de sua gravata até sufocá-lo. O fio que sustentava o ruído se perdeu, e você está vivo, bem vivo, no seu mapa arredondado. E ainda ganhou um emprego, e três pais. Escola, malte gelado e política guiaram-no pela vida afora sob as bênçãos das fibras de sisal. 
Esteios de madeira de lei é o que eles foram na vida de Tão. Os dias tristes ficaram para trás. Só os resquícios dos dias tristes permanecem. E a memória. Com a mão direita, Tão Preto segura o cigarro e a vontade de ligar para ela não passa, mas você tinha medo das palavras, elas o assustavam tanto quanto à timidez e, quando o medo era mais intenso, mais forte, você despia o sapato e começava a dançar entre os séculos e mares que os separavam antes de atravessar os oceanos. Não era preciso vinho. E lá ia, você, Tão Preto, engolindo poeira com as solas dos pés em brasa. O corpo em chamas, parecia um rato pelos cantos, revelando o animal que sempre foi. E nada mais importava se ela estava por perto. Nada mais o faria ignorar se o rumo era certo. Também importa saber se este mar ainda dessalga o seu corpo; saber se a sua geometria se assemelha à do mar, se há no seu horizonte nuvens, se há temporal, se há na sua solidão sempre sal; importa saber se se pode enredar-se em sua rede ou perder-se em sua linha, em seu anzol; se o frio na medula é um acorde em sol; se se pode entranhar-se em suas entranhas para, antes de passar a barra, apascentar-se em outro litoral e nos sorrisos fora do papel sem pular etapas ou sem escrever alguma coisa entre parênteses. Entre o azedo do tamarindo e o mel da abelha, Tão Preto ainda guarda com as digitais do tio Osvaldo a gravata do seu primeiro emprego.

(José Carlos Sant Anna)

10 comentários:

  1. Texto maravilhoso que me fascinou ler. Esqueçamos TUDO de menos bom e avancemos através do que é bom. Muito salutar e bonito de ler.
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    Um Sábado feliz
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  2. Un placer pasar a leerte. Saludos a la distancia.

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  3. Tão Preto de corpo em chamas. Nada mais importando se ela estava por perto. Todas as memórias no mesmo sentido obrigatório da paixão.
    É um gosto imenso ler um texto excelente como este. Tudo o que eu diga dele fica aquém daquilo que senti ao lê-lo.
    Cuide-se, meu Amigo José Carlos.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  4. José Carlos.
    Não tenho palavras à altura deste seu texto.
    Tal como a Graça, senti-o, e imaginei, como ficaria feliz se fosse meu.

    Tudo de bom para si meu amigo.

    Um grande abraço.

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  5. Ah, um texto altamente literário. Muito bom mesmo !!

    Emoção boa ao lê-lo. Parabéns .

    E a música ? Céus, Carinhoso, por esse violão divino. Harmonizou-se com a sua Obra delicada . Aplaudo novamente.
    Bjo carinhoso.

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  6. Um texto tão afinado como as notas de 'Carinhoso'_ li reli e quis muito que dias tristes sejam apenas resquícios também. E uma ligeira sensação de ligar e saber que os amigos já não estão lá.
    Sintonia, talvez.
    E quando nada mais importar amigo ,sei não ,se restará algum rumo.
    Achei muito muito lindo tudo que não se importa, se importando.. rs
    abraço Jcarlos abraço

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  7. Olá, professor! Belíssomo texto que nos leva a pensar na vida, desde lá, quando éramos crianças, ou jovens.
    Tenho escutado muito o tal "viva o aqui e agora e esqueça o resto, não se vive de passado"!
    Mas nossa alma, nossa vida não é um 'quadro negro' de sala de aula em que pode-se apagar tudo. Assim como temos as lindas lembranças, e que não se apagarão, temos também outras vivencias que ficarão. E isso tudo molda nossas vidas. O ruim é quando não conseguimos gerenciar nossas emoções, nossas lembranças.
    Gostei muito de ler esse teu texto!
    E sobre o vídeo, Yamandú é fantástico, e Carinhoso é Brasil! Muito linda.
    Uma boa semana,
    beijo, José Carlos.

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  8. É, de facto, uma texto que nos enreda em memórias e nas particularidades que realmente importam. É preciso colher da árvore os melhores frutos. Algo que dá prazer.

    Beijos, meu amigo José Carlos.

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