quarta-feira, 26 de maio de 2021

O doce sabor da fruta madura

 


É coisa demais gritando ao mesmo tempo a descoser a impressão que não arreda o pé da pandemia. 

Aquele gato em escorpião, olhos enfumaçados, sem mãe, permanece ao deus-dará na esquina. 

Aquela sombra sob a marquise no olho da noite é um soco no estômago. 

Esquecida, a inércia das longas viagens, sem malas, sem agasalho e sem a comida caseira deixa de ser um improviso que desconheceu os ensaios. 

Os santos óleos da dúvida para entender as mãos vazias, os tumultos flagrantes deslizando no ar já não preocupam o olho mágico da porta. 

O retrato da vovó – me desculpe, Lis, queria ao menos lhe explicar, mas não há tempo para fazê-lo nesta rede complexa de coincidências e agoras – se desfolhando, enquanto ela reclama do seu confinamento no retângulo da moldura. 

As palavras que se negam no meio da noite turva do casal sem filhos.

O grito pálido no silêncio em um lugar cheio de excesso em que o sono é irmão da morte.

O ensaio meticulosamente planejado para um "fora Bolsonaro" achando que as coisas podem dar certo, como se fôssemos os chilenos que elegem para sua assembleia constituinte uma maioria feminina. 

Ah, que inveja desse povo que não tem a consciência nos pés, na bola, no carnaval e em outras coisinhas mais!

Maricotinha, onde andarás? 

Me desculpe, estou descobrindo que sinto falta da tua pele macia, do teu perfume, minha fruta madura. 

Não está na hora de você voltar ao nosso confinamento e deleites, rio abaixo, rio acima?


(José Carlos Sant Anna) 

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


12 comentários:

  1. Un hermoso texto que parece encerrar una espera que se prolonga
    por la pandemia
    y todo aquello que vamos perdiendo a postergando
    esperando que este finalice
    Los abrazos, los encuentros, los viajes
    La gente mayor a la espera tambien de la calidez
    de un beso
    o un abrazo
    Pero lo bueno es la esperanza
    y saber que nos merecemos disfrutar de la vida
    y del amor.
    Besos
    Bonito dia!

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  2. Texto movimentado, abordando vários temos, acabando em fruta madura. Texto sem dúvida muito interessante de ler
    .
    Cumprimentos poéticos
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  3. Uma crônica poética fantástica, que amei percorrer, devagar , sem pressa, saboreando cada palavra, como se mel fosse.

    Sim, Sant Anna, tudo está passando e de forma mais rápida do que nunca. Nossa concepção de tempo se alterou e percebo que o desafio é compreender o real significado de toda essa balburdia em que estamos envolvidos até o pescoço. O gato solitário lá na esquina, certamente está à caça, esteja certo. Penso que se a Maricotinha não retornar pros teus braços, deves seguir o exemplo do bichano. A vida é curta e o tempo voa.
    Beijos sem pressa!!

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  4. Diante da tua narração poética, mais justo é dizer que dissestes tudo e se tentar dizer mais vou me atrapalhar ,rs basta-me ler, reler e me deliciar com o estado de espírito da sua escrita que tem o tal sabor de fruta madura e claro 'todo o amor' do Cazuza.
    Já o confinamento pelo menos trouxe-nos a máscara o que ajuda-nos a pensar que estamos no Carnaval, que o seu 'presidente' teima em prolongar com as gracinhas, pra não dizer palhaçadas.
    rs
    Então vamos nos reinventando _e 'pra poesia que a gente não vive' transformamos o tédio em melodia, ok ?
    Deixo abraços pra Ti, Jcarlos

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    1. _voltando aqui para recomendar que leia minha resposta ao seu comentário sobre nossos poetas. De fato, tem muita gente pensando que sou portuguesa rs confesso que em tempos obscuros por aqui, seria até confortável. O que seria difícil seria deixar esse sol de todas as manhãs nesse País lindo e ensolarado_ mesmo em dias outonais, invernais ou seja ano inteiro .
      Me entendeu não? rs
      meus abraços, pois.

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  5. Hoy no pude traducir, te dejo mis saludos amigo.

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  6. Entendo muito bem que Tão Preto tenhas saudades da pele e do perfume a fruta madura de Maricotinha. Porque há "coisa demais gritando ao mesmo tempo". Há sombras e morte numa tragédia que envolve outras tragédias e nos perturbam a vida. Enquanto estava a ler este belíssimo texto veio-me à memória um poeta que disse "toda a gente nos quer resumir numa só pessoa, mas cada um de nós é uma multidão desorientada"... É sempre um gosto enorme lê-lo, meu Amigo José Carlos. Cuide-se bem.
    Um beijo.

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  7. Um texto soberbo, para ler e reler.
    Os meus aplausos ao seu talento literário.
    Bom fim de semana, caro José Carlos.
    Abraço.

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  8. Como não sentir falta da sua Maricotinha, no meio desse caos, dessa tragédia.
    valha-nos o sonho, a fantasia e a poesia, amigo José Carlos.

    Um abraço, feliz semana !

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  9. Também aplaudo esta multiplicidade de olhares, estas reflexões sobre o conturbado tempo que vivemos. E entendo que a Maricotinha seja o confinamento desejado. Apetece continuar a ler o caderno de rascunhos de Tão Preto.
    Amei o Cazuza.

    Boa semana e saúde, meu amigo José Carlos.

    Um beijo.

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  10. "Aquela sombra sob a marquise no olho da noite é um soco no estômago." Nossa...e se é!!
    Tudo está muito ruim, o "Bolsonaro Fora", juntou-se com a pandemia, com a falta de consciência nas aglomerações, com esse caos que não tem fim, nesse perigo que não baixa, que apavora, que cansa, que isola e que nos deixa sem chão! Cadê um tiquinho de esperança para amansar nossos dias? Nada, por enquanto, o Brasil segue sua estrada sem fim.
    Traz...traz logo a Maricotinha para alegrara vida!!! rs
    Beijo, professor, adorei ler!
    Cuide-se também.

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  11. A ilusionista foi poderosa e demasiado sedutora. A música ambiente acompanhou o movimento da cena. E o escritor enredou-se no mundo da biblioteca onde tudo se eleva e se esvai.
    Confesso o prazer de ler várias vezes este texto.

    Boa semana, meu amigo José Carlos.

    Um beijo.

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