terça-feira, 29 de junho de 2021

Tantas linhas para dizer só isto

 


Ficaram meus olhos enfumaçados quando o dono da casa abriu a porta do apartamento e Chico Buarque de Holanda, de carne e osso, sorridente, depois de “ter atravessado a rua no seu passo tímido”, entrou e cumprimentou os que estavam na sala de visitas.

Eram cinco professores da área de arquitetura. Fariam uma homenagem ao cantor, compositor e escritor que, à luz da lógica, eu não saberia dizer-lhe as razões de tal honraria. Eu estava lá também entre os convivas. Embora eu não fosse da área de arquitetura, com os olhos semicerrados, guardava algo raramente provado de tão original e catatônico que eu não saberia dar-lhe um nome.

Até então eu era uma criatura invisível no olho da noite no meio da sala de jantar dos discretos senhores. Intruso. Anônimo. Substantivo que traduz bem a minha presença no fundo da sala. O que eu fazia? Embrulhava um livro, aleatoriamente, com dedicatória, escrita do meu próprio punho, dedicatória que tinha brotado da toalha da mesa como uma receita de pudim sem ovos. 

"Eu já sabia", como diria um fanático torcedor depois do apito final do árbitro da partida de futebol e a consequente vitória do clube do seu coração. Era como estava consignada a dedicatória para o artista da palavra e da música.

 E pasmem! Aquela homenagem era a propósito de um livro sobre arquitetura que ele nunca cogitou porque a arquitetura não passou de uma esquina aberta em sua vida para a qual ele não voltou, sequer para um chope gelado, bebido em pé, mesmo que fosse só para refrescar a memória.

Como visto e à luz da lógica, das borras desse café sairão apenas algumas sombras inexplicáveis, como se a vida fosse um barato de comida caseira. Foi tudo muito rápido, como um sopro, como um sonho, sem divã para esmiuçá-lo. Talvez por isso Chico não se tenha demorado na face oculta desta sala.

Não sei se ficaram cigarros pela metade na sala, se beberam cerveja, se houve a magia de abraços entre os presentes. Eu só sei que Chico, depois de despedir-se dos presentes, saiu “pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair” e, quase no mesmo rastro, estava de volta à sala. A porta do apartamento não chegou a se fechar. Aí, ele entrou e foi direto ao meu encontro.

Com um gesto solene me abraçou e depois de algumas palavras ao sabor do vento, o que não é comum em Chico, sempre muito gentil, foi saindo em definitivo.

Uau! Vejam, o cara voltou só para falar comigo. Imaginem! Quanta honra! Com um aceno largo, eu o chamei para dar-lhe o livro de presente, o que eu acabara de embrulhar com um papel amarfanhado e uma tinta qualquer usada para escrever a dedicatória, no livro, o que ele nunca escrevera ou imaginara. Na página de abertura da obra, uma  incompreensível dedicatória, e agora cabe ao leitor, à luz da arte de fingir, explicar essa utopia na noite.

José Carlos Sant Anna.


terça-feira, 22 de junho de 2021

Ela voltou

 

– Alguma notícia de Maricotinha?

O garçom olhou Tão Preto sem entender o que ele queria saber e deu quatro ou cinco passos adiante até uma mesa de canto do Meia Légua. Vazio, o bar estava sem aquela energia visceral e os garçons bocejavam pelo meio do salão.

Tão Preto, que o seguia rindo, se sentou e pediu um chope bem gelado, como se não tivesse lhe perguntado nadica de nada.

– O senhor perguntou o que doutor?

Tão Preto o olhou sério e disse:

– Eu lhe pedi um chope bem gelado, cheio de ânsia e vontade.

– Já comandei o pedido. Quer mais alguma coisa, doutor? – Perguntou-lhe gentil. 

– Não, obrigado. Um dedo de colarinho no chope, por favor!

– Mas o senhor queria saber alguma coisa quando entrou? Ou me enganei?

Tão Preto deu de ombros à insinuação do garçom, mas ele insistiu:

– Me perguntou se eu tinha notícias da senhora Maricotinha, não foi?

– E o senhor conhece D. Maricota das Neves Rocha? – Perguntou-lhe com um ar sério, como se dissesse quem lhe deu tanta intimidade.

Confuso, o garçom respondeu:

– Não, não conheço essa senhora! Foi o senhor que falou esse nome quando entrou.

– Fala sério, cara! Perguntei-lhe o quê?

O garçom se atrapalhou nas palavras para responder-lhe. E por não saber o que dizer, se afastou para pegar o chope no balcão, pensando “porra, lidamos com tantas esquisitices na vida. Aqui, no Meia Légua, não é diferente. Às vezes, elas parecem maiores. É o nome do bar. Pudera! Meia Légua”. E não se grilou com aquilo. “Toca a boiada, vaqueiro! O doutor tem cara de boa gente”, disse cheio de garra! Seus colegas no balcão da choperia o olharam desconfiados! Ele riu. E falou ainda alto para que eles o ouvissem: 

– A noite promete!

 

 

Maricotinha vai ficar furiosa ao saber que Tão Preto não segurou a língua e saiu pelo mundo afora e redes sociais – como viver sem elas hoje? – como se fosse o pôster do amigo Che Guevara, perguntando se alguém a tinha visto por aí, se alguém tinha notícias do paradeiro da sua companheira, como ele fazia agora com o garçom. Ou da sua fiel escudeira, como ele preferia chamá-la.

O garçom voltou com a tulipa de chope.

Tão Preto estava com a língua coçando e estava conta não conta a sua história, ali, no Meia Légua, que guardava outras histórias nas paredes e mobiliário da casa.  

– Senta aí que vou lhe contar uma história.

O garçom reagiu.

– Não posso sentar não doutor. Meu trabalho é em pé e não posso ficar de conversinha mole com cliente não, senão eu danço. As crianças estão em casa me esperando com o leite – respondeu meio na bronca o garçom.

Tão Preto riu da resposta torta e embicou a tulipa, deixando-a pela metade.

– Humm! O senhor estava seco? – disse conciliador o garçom.

– É a falta de Maricotinha – disse-lhe com um ar bem-humorado, observando sua reação ao ouvir pela segunda vez o nome de Maricotinha.

O garçom não se afastou. Ficou esperando o que estava por vir porque garçom é igual a barbeiro, gosta duma resenha.  

– Como é mesmo o seu nome?

– Daniel. Pode me chamar pelo meu nome, doutor.

– Pois, Daniel, quando menos se espera, furtivo, um mote arranha a porta – e Maricotinha some no mundo com o gostinho de torta na boca e os dentes brancos em excesso à mostra a quantos queiram admirar o seu riso sedutor e a desafiar a natureza dos galanteadores de plantão e a sua resistência, (no caso a dela, que fique claro). Certa vez, numa dessas fugas, brejeira, ela me disse: “Eu gosto mesmo é da solidão a sós e não a dois. Pode relaxar, meu bem! Sua testa estará sempre despojada de galhos. Eu sei que ela não é floresta”. E riu gostosamente.

Daniel foi pegar outro chope. Trouxe a tulipa na bandeja, colocou-a na mesa e se encostou na parede, curioso.  

– Maricotinha, nunca passou mais de uma semana longe da nossa alcova, ela é meu ioiô, vai e volta. Mas desta vez, ela já tem quinze dias ausente das correntezas do nosso rio.

– Quinze dias? Não errou nas contas, doutor? 

Tão Preto não deu bola para a observação do garçom e continuou:

 – Quando ela sumiu era uma manhã mais clara que qualquer outra manhã da minha vida. Depois de passarmos a noite em festa, rio abaixo, rio acima, como gostamos de fazer quando estamos juntos, em posição fetal, ela me pediu para aconchegar-me ao seu corpo para ela dormir mais depressa. Ao acordar, ela me encontrou de pé preparando o café da manhã. Ela chegou de tênis e malha para o jogging. Ela não falava que ia correr na orla. Ela caprichava na pronúncia. E dizia: “Se moderniza, cara! Diga jogging, é mais chique”, e ria do seu humor em alta como se estivesse aplicando na Bolsa de Valores.

No meio da segunda tulipa de chope, o telefone trincou. Tão Preto olhou o bicho e lá estava a mensagem: “Tá aonde, meu bem? Já tenho habeas corpus.  Meu amor é igual ao amor de malandro, ele vai e volta. Estou aquecendo a água do rio à tua espera, beijo!”

Revirado ao avesso com o combustível dialético da mulher, pelo sabor original que ela tem, efêmero e transgressor, Tão Preto já sentia o beijo de Maricotinha pelo seu corpo inteiro e disse para o seu duplo: "Dane-se o garçom! O resto da história, ele poderá ouvi-la qualquer outro dia. Mesmo porque agora o final poderá ser outro", e correu para os braços de Maricotinha.


(José Carlos Sant Anna)

 

terça-feira, 15 de junho de 2021

Do avarandado

 

acervo pessoal

Ao olhar em torno
abstraio-me do supérfluo
e refaço o curso dos dias
no repouso do silêncio
da solidão e do esquecimento 

(José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 8 de junho de 2021

Tio Tonho

 


Era uma manhã cinzenta nos Alagados. Bem cinzenta. E ficaria mais cinzenta, se Tonho, o soldado do fogo, porque bombeiro de profissão, diante dos fatos, ao entrar em casa, tivesse perdido de outro modo a cabeça.

O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e se preparava para carregar água para abastecer a casa, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes do barraco onde morava. Não pensou duas vezes. Depressa, como um bólido, ele pegou a toalha para fazer a rodilha, a lata grande, de flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a novidade para casa.  

Num piscar de olhos, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com seus irmãos, embora lhe coubesse sempre um quinhão maior nas tarefas.

O menino gritou da porta da rua:

— Mãe, vou pegar a água no chafariz.

E não esperou a resposta da sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do barraco. 

Com pequeno atraso, ouviu já longe a resposta da mãe: 

— Não fique na rua. Chafariz e casa!

Ele não chegou imediatamente ao chafariz, pois estancou no meio do caminho ao ver um homem na superfície da água que, para sorte dele, era a maré cheia. 

Como aquele homem teria pulado pela janela, se na maré baixa a água refluía completamente deixando os mourões dos barracos, cobertos de ostras, visíveis, nus da água?

O homem nadava e mergulhava. E, ao emergir, olhava para trás para saber se havia alguém o perseguindo por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o reconheceu. E o homem, vendo-o, fez um sinal com o dedo na boca com uma mão e, em seguida, um gesto para afastar-se, ir-se embora, enquanto se segurava em um dos mourões do barraco mais próximo com a outra. O menino viu medo escrito no rosto do homem. Parecia que ele tinha visto uma alma penada em plena luz do dia. Assustado, o menino se afastou como ele pediu.

O homem era Ladi, como todos o chamavam. Um homem meio fino para os padrões da invasão. Tinha vindo do Rio de Janeiro e vivia se exibindo nas redondezas, metido a galã. O menino sabia quem era ele. Conhecia as irmãs e as sobrinhas dele. O menino, que era muito esperto, já olhava com interesse as três sobrinhas, na adolescência, ao vê-las desfilar pelas pontes quando ele se babava ou se refugiava pelos cantos.

O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher com um facão. E o menino, mesmo assustado, a curiosidade se sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra firme. 

Ele queria saber das notícias porque o homem que surrava a mulher era seu tio, o soldado do fogo, como o chamavam. Quase um codinome. Mas seu nome era Tonho. E o da mulher Rute. Eram chamados de tio e tia. Não era um parentesco em primeiro grau. 

Os laços familiares da sua mãe eram confusos para ele. Eram tantos tios e primos que, mais tarde, o menino acabou namorando uma delas, mas não ultrapassou os limites do possível para a época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família desestruturada. E seguia conselho da mãe ao pé da letra: “não arranje sarna para se coçar, menino”, era o que ela lhe dizia a toda hora. 

No chafariz, já sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. Como a notícia chegara ali tão depressa, ele não sabia dizer ou explicar. O que sabia e não disse, é que, por pouco, ele não assistiu a cena. 

Ladi, de cueca, pulando a janela do quarto e caindo ao mar para livrar-se de tio Tonho. O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da sua mulher. Ele já sabia que ela vadiava na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra de facão na mulher. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama. Se tal ocorresse, aí sim, como sabê-lo?, uma tragédia teria ocorrido. 

E o Ladi se escafedera ao perceber o barulho na porta da frente. Dizia-se depois que ele tinha pegado um ônibus de volta para o Rio de Janeiro, à noite, depois de passar o dia inteiro escondido no bairro do Jardim Cruzeiro, na casa de um irmão. Era o medo de que sobrassem lanhas do facão para ele. 

O menino nunca mais soube do tio Tonho, nem da tia Rute. Dizem que eles nunca se separaram, mas conheceram quase todos os bairros da cidade porque eles mudavam de casa com frequência. 


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto

 


terça-feira, 1 de junho de 2021

A ilusionista

 


No meio da sala, entre os livros da sua biblioteca, ela lhe pediu que fechasse a porta. Afobado, ele atendeu o pedido. Segura de que estavam a sós, ela, antes de tomar a iniciativa de tirar a roupa, lhe disse:

— O cadeado está meio aberto.

Ele lhe perguntou:

— Meio aberto? Como? Não há meio termo nesses casos — para saber se havia dubiedade na afirmativa que ela fazia.

Ela deixou escapar um riso discreto e meio tímido — ele quase afirmou que, no caso do tímido, havia o meio termo , e lhe disse:

— O cara ainda não tinha pegado o jeito de abrir cadeado. Era a primeira vez dele. A minha seria a única — por enquanto. Tô esperando por você. E não era um cadeado com segredo. Nunca houve literalmente cadeado com segredo nesses casos. Complacente, às vezes, sim,  deixando escapar outra vez o riso tímido. — Depois ele me tirou da caatinga, do meio do mato e me trouxe para a cidade grande, para que eu me cuidasse. Me cuidei e sou-lhe muito grata.  Me tornei uma artista.

Ao começar a tirar a roupa, ela teve um súbito lampejo e, interrompendo o seu gesto, se demorou olhando no fundo dos seus olhos, e lhe disse:

— Por que você demorou tanto a chegar para mim? Eu estava ficando cansada de esperar por você. Mas eu sabia que você viria. Agora, vem, vem, deixe-me amá-lo grudada às manchas daquela tela em branco — disse-lhe apontando a tela na parede da sua sala.

E, ao virar-se para olhar a tela, escorregadia como um sabonete, movediça, ela resvala. Ele alisa a sua barba por fazer ao ver seu objeto de desejo esvair-se pela janela como um rolinho de fumaça.


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto