terça-feira, 22 de junho de 2021

Ela voltou

 

– Alguma notícia de Maricotinha?

O garçom olhou Tão Preto sem entender o que ele queria saber e deu quatro ou cinco passos adiante até uma mesa de canto do Meia Légua. Vazio, o bar estava sem aquela energia visceral e os garçons bocejavam pelo meio do salão.

Tão Preto, que o seguia rindo, se sentou e pediu um chope bem gelado, como se não tivesse lhe perguntado nadica de nada.

– O senhor perguntou o que doutor?

Tão Preto o olhou sério e disse:

– Eu lhe pedi um chope bem gelado, cheio de ânsia e vontade.

– Já comandei o pedido. Quer mais alguma coisa, doutor? – Perguntou-lhe gentil. 

– Não, obrigado. Um dedo de colarinho no chope, por favor!

– Mas o senhor queria saber alguma coisa quando entrou? Ou me enganei?

Tão Preto deu de ombros à insinuação do garçom, mas ele insistiu:

– Me perguntou se eu tinha notícias da senhora Maricotinha, não foi?

– E o senhor conhece D. Maricota das Neves Rocha? – Perguntou-lhe com um ar sério, como se dissesse quem lhe deu tanta intimidade.

Confuso, o garçom respondeu:

– Não, não conheço essa senhora! Foi o senhor que falou esse nome quando entrou.

– Fala sério, cara! Perguntei-lhe o quê?

O garçom se atrapalhou nas palavras para responder-lhe. E por não saber o que dizer, se afastou para pegar o chope no balcão, pensando “porra, lidamos com tantas esquisitices na vida. Aqui, no Meia Légua, não é diferente. Às vezes, elas parecem maiores. É o nome do bar. Pudera! Meia Légua”. E não se grilou com aquilo. “Toca a boiada, vaqueiro! O doutor tem cara de boa gente”, disse cheio de garra! Seus colegas no balcão da choperia o olharam desconfiados! Ele riu. E falou ainda alto para que eles o ouvissem: 

– A noite promete!

 

 

Maricotinha vai ficar furiosa ao saber que Tão Preto não segurou a língua e saiu pelo mundo afora e redes sociais – como viver sem elas hoje? – como se fosse o pôster do amigo Che Guevara, perguntando se alguém a tinha visto por aí, se alguém tinha notícias do paradeiro da sua companheira, como ele fazia agora com o garçom. Ou da sua fiel escudeira, como ele preferia chamá-la.

O garçom voltou com a tulipa de chope.

Tão Preto estava com a língua coçando e estava conta não conta a sua história, ali, no Meia Légua, que guardava outras histórias nas paredes e mobiliário da casa.  

– Senta aí que vou lhe contar uma história.

O garçom reagiu.

– Não posso sentar não doutor. Meu trabalho é em pé e não posso ficar de conversinha mole com cliente não, senão eu danço. As crianças estão em casa me esperando com o leite – respondeu meio na bronca o garçom.

Tão Preto riu da resposta torta e embicou a tulipa, deixando-a pela metade.

– Humm! O senhor estava seco? – disse conciliador o garçom.

– É a falta de Maricotinha – disse-lhe com um ar bem-humorado, observando sua reação ao ouvir pela segunda vez o nome de Maricotinha.

O garçom não se afastou. Ficou esperando o que estava por vir porque garçom é igual a barbeiro, gosta duma resenha.  

– Como é mesmo o seu nome?

– Daniel. Pode me chamar pelo meu nome, doutor.

– Pois, Daniel, quando menos se espera, furtivo, um mote arranha a porta – e Maricotinha some no mundo com o gostinho de torta na boca e os dentes brancos em excesso à mostra a quantos queiram admirar o seu riso sedutor e a desafiar a natureza dos galanteadores de plantão e a sua resistência, (no caso a dela, que fique claro). Certa vez, numa dessas fugas, brejeira, ela me disse: “Eu gosto mesmo é da solidão a sós e não a dois. Pode relaxar, meu bem! Sua testa estará sempre despojada de galhos. Eu sei que ela não é floresta”. E riu gostosamente.

Daniel foi pegar outro chope. Trouxe a tulipa na bandeja, colocou-a na mesa e se encostou na parede, curioso.  

– Maricotinha, nunca passou mais de uma semana longe da nossa alcova, ela é meu ioiô, vai e volta. Mas desta vez, ela já tem quinze dias ausente das correntezas do nosso rio.

– Quinze dias? Não errou nas contas, doutor? 

Tão Preto não deu bola para a observação do garçom e continuou:

 – Quando ela sumiu era uma manhã mais clara que qualquer outra manhã da minha vida. Depois de passarmos a noite em festa, rio abaixo, rio acima, como gostamos de fazer quando estamos juntos, em posição fetal, ela me pediu para aconchegar-me ao seu corpo para ela dormir mais depressa. Ao acordar, ela me encontrou de pé preparando o café da manhã. Ela chegou de tênis e malha para o jogging. Ela não falava que ia correr na orla. Ela caprichava na pronúncia. E dizia: “Se moderniza, cara! Diga jogging, é mais chique”, e ria do seu humor em alta como se estivesse aplicando na Bolsa de Valores.

No meio da segunda tulipa de chope, o telefone trincou. Tão Preto olhou o bicho e lá estava a mensagem: “Tá aonde, meu bem? Já tenho habeas corpus.  Meu amor é igual ao amor de malandro, ele vai e volta. Estou aquecendo a água do rio à tua espera, beijo!”

Revirado ao avesso com o combustível dialético da mulher, pelo sabor original que ela tem, efêmero e transgressor, Tão Preto já sentia o beijo de Maricotinha pelo seu corpo inteiro e disse para o seu duplo: "Dane-se o garçom! O resto da história, ele poderá ouvi-la qualquer outro dia. Mesmo porque agora o final poderá ser outro", e correu para os braços de Maricotinha.


(José Carlos Sant Anna)

 

17 comentários:

  1. E assim se escreve ( muito bem ) um texto em prosa recheado de poesia. Gostei muito de ler
    .
    Abraço poético
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  2. Uma estória bem urdida e interessante!
    Leve, solta, mas cativante, leva nos a esperar pelo segundo capítulo...
    Foi um prazer a sua visita ao Barlavento, mas também a minha vinda às " dobras do dia"...
    Um abraço.

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  3. Parece-me ver os olhos iluminados de Tão Preto. Quinze dias na secura, sem a Maricotinha, fala sério!!!! Tão Preto nem precisaria se preocupar com o garçom. São os melhores cúmplices. Duas coisas me acendeu um fogaréu no seu delicioso e insímuante texto: o habeas corpus da Maricotinha e o aquecimento do rio pra Tão Preto "nadar" de braçadas, e ambos mergulharam correnteza afora.

    A D O R E I !!!!

    Parabéns Sant Anna. Excelente escritor e poeta.

    Beijos!!

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  4. Digitar no celular é fo....go !! Eu quis dizer " insinuante" e "mergulharem" ...

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  5. Olá, José Carlos, o conto saiu melhor do que a encomenda. Me diverti muito com essa história tão bem bolada, com estes personagens rigorosos, cheios de vida, e com essa ambientação tão bem descrita, que senti estar também no bar, numa rodada de shop. Gostei muito do conto!
    Uma excelente semana, com saúde.
    Grande abraço.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. "Meu amor é igual ao amor de malandro, ele vai e volta. Estou aquecendo a água do rio à tua espera, beijo!”. E podemos imaginar a pressa no corpo de Tão Preto e o enorme brilho do seu olhar espalhado pelo bar "Meia Légua" donde ele saiu correndo. Uma narrativa maravilhosa a que fiquei presa logo pelo título: "Ela voltou". Que gosto que é lê-lo!
    Continue a cuidar-se bem, meu Amigo José Carlos.
    Um beijo.

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  8. História bem bolada, como diz o amigo Pedro. Avanços e recuos numa secura descontrolada. E o rio segue o seu curso.
    Esse "Meia Légua" é um livro em construção.
    Maravilhosa escrita.

    Abraço, amigo José Carlos.

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  9. A Maricotinha virou sucesso, onde pisa, agrada! Porém essa vez até o garçom ficou meio desconcertado, gostei do ambiente do bar, deu para imaginar, bem descrito. E o bate-papo com o garçom foi hilário.
    Aguardemos a Maricotinha...rss
    Uma ótima semana, professor, cuide-se bastante.
    Um beijo.

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    1. Adoro Maria Rita, o timbre da voz é parecido com a da Elis.
      Saudades de Pimentinha Elis...
      Uma feliz semana, José Carlos!
      Beijo

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  10. Uma história deliciosa e bem contada.
    O seu talento para as letras é enorme.
    Continuação de boa semana, caro amigo José Carlos.
    Abraço.

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  11. História maravilhosa e talentosa, escrita do forma inteligente. Bom final de semana.

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  12. No começo da narrativa, achei Tão Preto bastante invocadinho...Depois, soltou a língua, como fazem todos os homens depois de dois chopes rs... Amigo querido, não vou dizer que você escreve estupendamente bem, porque estaria fazendo chover no molhado...Percebe? Beijinhos para você, José Carlos!!!

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  13. Uma vida muito vivida, plena de referências. E elas, querendo-se manter vivas, vão ensaboando a cabeça do autor que, de si, corresponde ao apelo, talvez na esperança de que algo aconteça que dê sentido a um casacão cerzido com muitas linhas.
    Gosto muito da sua prosa, companheiro!

    Abração

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  14. Muy bueno que bien llevada la historia y garcioso el tema con el camarero. Me gusto. Beso

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  15. Narrativa impregnada da boa 'conversa de botequim'_ o cronista escreve bem quando tem assunto e melhor ainda quando não tem - daí o diálogo com o garçom.
    _ trás aí mais dois chopps que lá vem a Maricotinha .. rs
    Sempre bom te ler JCarlos

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