terça-feira, 1 de junho de 2021

A ilusionista

 


No meio da sala, entre os livros da sua biblioteca, ela lhe pediu que fechasse a porta. Afobado, ele atendeu o pedido. Segura de que estavam a sós, ela, antes de tomar a iniciativa de tirar a roupa, lhe disse:

— O cadeado está meio aberto.

Ele lhe perguntou:

— Meio aberto? Como? Não há meio termo nesses casos — para saber se havia dubiedade na afirmativa que ela fazia.

Ela deixou escapar um riso discreto e meio tímido — ele quase afirmou que, no caso do tímido, havia o meio termo , e lhe disse:

— O cara ainda não tinha pegado o jeito de abrir cadeado. Era a primeira vez dele. A minha seria a única — por enquanto. Tô esperando por você. E não era um cadeado com segredo. Nunca houve literalmente cadeado com segredo nesses casos. Complacente, às vezes, sim,  deixando escapar outra vez o riso tímido. — Depois ele me tirou da caatinga, do meio do mato e me trouxe para a cidade grande, para que eu me cuidasse. Me cuidei e sou-lhe muito grata.  Me tornei uma artista.

Ao começar a tirar a roupa, ela teve um súbito lampejo e, interrompendo o seu gesto, se demorou olhando no fundo dos seus olhos, e lhe disse:

— Por que você demorou tanto a chegar para mim? Eu estava ficando cansada de esperar por você. Mas eu sabia que você viria. Agora, vem, vem, deixe-me amá-lo grudada às manchas daquela tela em branco — disse-lhe apontando a tela na parede da sua sala.

E, ao virar-se para olhar a tela, escorregadia como um sabonete, movediça, ela resvala. Ele alisa a sua barba por fazer ao ver seu objeto de desejo esvair-se pela janela como um rolinho de fumaça.


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto


11 comentários:

  1. Definitivamente hay ilusiones como destellos que nos vuelven a la vida, a la inspiracion y a la belleza, como este texto que has escrito y que nos abre las puertas al mundo de la ensoñacion y de la imaginativa.La musica seleccionada con esa voz preciosa de la interprete sumada al saxo y al clarinete terminan de crear una atmosfera perfecta para el ilusionismo. Precioso!!!Te dejo un fuerte abrazo José Carlos y el deseo de un dia especialmente bonito

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  2. Demorei-me na leitura, porque já sabia por antecipação que o autor sabe prender a atenção de seus leitores com textos incríveis , surpreendentes e instigantes. Deliciei-me, ouvindo "Si tu vois ma mère" . Penso que todos nós que gostamos de escrever somos um pouco ilusionistas. Precisamos criar mesmo uma "ilusão" para fomentar, alavancar nossa imaginação, nosso tesão, para passarmos relativa " verdade" para os que nos leem. Mas em se tratando de José Carlos Sant Anna, ouso afirmar que ele possui muita magia, porque me encanta com seus textos, e com os comentários que me deixa lá no Sementes.

    Beijos ... Beijos !!! Sem ilusionismo, mas com boa dose de magia pra ti.

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  3. Olá, meu amigo José Carlos, li o seu conto "A Ilusionista" com atenção que de mim exigiu o texto para compreender essa história tão bem arquitetada, não para quem faz uma leitura rápida, mas para o leitor que se sente em meio a um labirinto e que procura saída.
    Gostei imensamente, meu amigo!
    Quanto ao vídeo é uma joia, principalmente para nós que gostamos de Jazz. Muito bom.
    Uma excelente semana, com os devidos cuidados.

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  4. Um texto que surpreende com habilidades de um ilusionista. A cada momento, uma descoberta_ truques engenhosos nos 'rascunhos de Tão Preto' e uma revoada nas nossas mentes.
    Fiquei imaginando um sujeito que não saber abrir cadeados_ é uma parte surpreendente rs pior é que há chaves que se perdem ,pra sempre, com ou sem cadeados. E, há também portas abertas.
    Enfim, a ilusão sempre inoportuna(estou só devaneando), bom mesmo é que 'ela se esvai como fumaça' rs
    Fica minha admiração e carinho, Jcarlos.
    Boa noite e bons dias .

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  5. Tantas vezes, na vida o que desejamos muito se esfumaça, porque não passava de uma ilusão, de algo que era apenas uma magia criadora da imaginação. A sua escrita é encantatória, meu Amigo José Carlos.
    Cuide-se bem. Uma semana agradável.
    Um beijo.

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  6. Llego como ilusión y asi mismo se fue...... Un gusto leerte amigo. Saludos.

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  7. Fantasia literária e ilusão de mãos muito bem dadas.
    Gostei imenso, este trecho é de mestre das palavras.
    Bom fim de semana, caro José Carlos.
    Abraço.

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  8. :)
    Que dizer, meu caro José Carlos? As coisas são como são, a maturidade, a maturidade que se vai instalando não contempla parceiros. Ou deveria?
    Bela prosa.

    Grande abraço

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  9. "A ilusionista" foi fiel ao título, você amarrou muito bem essa história, prende o leitor até o final, uma técnica sensacional! E lá continuamos nós a procurar o nó do problema! rs
    Uma feliz semana, professor!
    Beijo.

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  10. Só numa biblioteca os romances são esparsos, como quem abre um livro e logo outro. Entre eles imiscui-se o pensamento a prolongar impressões e sensações.

    Meu amigo, estava confiante que já tinha deixado um comentário por aqui. Apreciei demais o texto.

    Grande abraço, José Carlos.

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  11. Un mundo de ilusiones y ensoñación que envuelven tus letras. Muy bueno besos.

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