terça-feira, 8 de junho de 2021

Tio Tonho

 


Era uma manhã cinzenta nos Alagados. Bem cinzenta. E ficaria mais cinzenta, se Tonho, o soldado do fogo, porque bombeiro de profissão, diante dos fatos, ao entrar em casa, tivesse perdido de outro modo a cabeça.

O menino tinha acabado de fazer os deveres da escola e se preparava para carregar água para abastecer a casa, quando ouviu um burburinho do lado de fora, além das quatro paredes do barraco onde morava. Não pensou duas vezes. Depressa, como um bólido, ele pegou a toalha para fazer a rodilha, a lata grande, de flandres, para tomar, pelas pontes de madeira, o rumo do chafariz e trazer a novidade para casa.  

Num piscar de olhos, ele estava pronto para cumprir outra das suas obrigações. A primeira era estudar; a segunda, ajudar nas tarefas da casa com seus irmãos, embora lhe coubesse sempre um quinhão maior nas tarefas.

O menino gritou da porta da rua:

— Mãe, vou pegar a água no chafariz.

E não esperou a resposta da sua mãe. A máquina de costura rasgava o silêncio do barraco. 

Com pequeno atraso, ouviu já longe a resposta da mãe: 

— Não fique na rua. Chafariz e casa!

Ele não chegou imediatamente ao chafariz, pois estancou no meio do caminho ao ver um homem na superfície da água que, para sorte dele, era a maré cheia. 

Como aquele homem teria pulado pela janela, se na maré baixa a água refluía completamente deixando os mourões dos barracos, cobertos de ostras, visíveis, nus da água?

O homem nadava e mergulhava. E, ao emergir, olhava para trás para saber se havia alguém o perseguindo por cima das pontes. O menino mirou bem o homem e o reconheceu. E o homem, vendo-o, fez um sinal com o dedo na boca com uma mão e, em seguida, um gesto para afastar-se, ir-se embora, enquanto se segurava em um dos mourões do barraco mais próximo com a outra. O menino viu medo escrito no rosto do homem. Parecia que ele tinha visto uma alma penada em plena luz do dia. Assustado, o menino se afastou como ele pediu.

O homem era Ladi, como todos o chamavam. Um homem meio fino para os padrões da invasão. Tinha vindo do Rio de Janeiro e vivia se exibindo nas redondezas, metido a galã. O menino sabia quem era ele. Conhecia as irmãs e as sobrinhas dele. O menino, que era muito esperto, já olhava com interesse as três sobrinhas, na adolescência, ao vê-las desfilar pelas pontes quando ele se babava ou se refugiava pelos cantos.

O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher com um facão. E o menino, mesmo assustado, a curiosidade se sobrepondo, correu sobre as pontes para pegar a água no chafariz em terra firme. 

Ele queria saber das notícias porque o homem que surrava a mulher era seu tio, o soldado do fogo, como o chamavam. Quase um codinome. Mas seu nome era Tonho. E o da mulher Rute. Eram chamados de tio e tia. Não era um parentesco em primeiro grau. 

Os laços familiares da sua mãe eram confusos para ele. Eram tantos tios e primos que, mais tarde, o menino acabou namorando uma delas, mas não ultrapassou os limites do possível para a época. O menino tinha juízo. Não queria para si uma família desestruturada. E seguia conselho da mãe ao pé da letra: “não arranje sarna para se coçar, menino”, era o que ela lhe dizia a toda hora. 

No chafariz, já sabiam o que tinha ocorrido na casa do tio dele. Como a notícia chegara ali tão depressa, ele não sabia dizer ou explicar. O que sabia e não disse, é que, por pouco, ele não assistiu a cena. 

Ladi, de cueca, pulando a janela do quarto e caindo ao mar para livrar-se de tio Tonho. O bombeiro chegara na manhã cinzenta pronto para apagar o fogo da sua mulher. Ele já sabia que ela vadiava na sua ausência com o tal do Ladi, como ele dissera depois no seio da família para justificar a surra de facão na mulher. O tio do menino queria era tê-los apanhado na cama. Se tal ocorresse, aí sim, como sabê-lo?, uma tragédia teria ocorrido. 

E o Ladi se escafedera ao perceber o barulho na porta da frente. Dizia-se depois que ele tinha pegado um ônibus de volta para o Rio de Janeiro, à noite, depois de passar o dia inteiro escondido no bairro do Jardim Cruzeiro, na casa de um irmão. Era o medo de que sobrassem lanhas do facão para ele. 

O menino nunca mais soube do tio Tonho, nem da tia Rute. Dizem que eles nunca se separaram, mas conheceram quase todos os bairros da cidade porque eles mudavam de casa com frequência. 


(José Carlos Sant Anna)

Do Caderno de rascunhos de Tão Preto

 


10 comentários:

  1. Adorei ler e conhecer este seu "Tio Tonho".
    Ainda bem que o mar era ali perto :)
    Adoro o humor da sua escrita amigo José Carlos.

    Um abraço!

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  2. Ai Tonho, tonho,

    "" O homem que aquele homem achava que o perseguia por cima das pontes estava ocupado em surrar a mulher com um facão ""

    Jesus que violência.
    .
    Abraço de amizade poética.
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  3. Sabemos que existem muitos "Tonhos" por esse mundão de Deus. E óbvio, as "Rutes" . E por essa razão, proliferam os "Ladis" . Que maravilha !!! Kkkkk
    Gosto do seu estilo literário porque rondando os passos dos personagens existe uma expressão da poesia viva. Há na sua historia, envolvente, por sinal, superior qualidade; as palavras, os detalhes da vida interiorana, os costumes de um povo que conheço de perto, por que vivi no meio dele. Resumindo, caro Sant Anna, ler-te é trazer um.oasis para o meu olhar.

    Beijos beijos!!!

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  4. Un relato en el que se mezclan un poco las situaciones picarescas, amorosas, con la tragedia que podria suceder ( y de hecho en la vida real sucede a menudo)cuando algunas situaciones entre las parejas salen a la luz y se descubren cosas que deberian permanecer ocultas. Me gusta como le pones un toque de humor al relato y tambien de simpleza en la descripcion de esas costumbres de pueblo tan tipicas de cada pais y de cada zona en particular. Te dejo un abrazo grande José Carlos y que tengas una bonita noche

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  5. Uma narrativa que me prendeu do princípio ao fim. Já não falo da sua forma de escrever sempre tão cativante. Gostei do menino, tão atilado, já tão por dentro dos desvarios dos mais velhos. Um prazer passar por aqui, meu Amigo José Carlos.
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  6. Un gusto leerte amigo. Saludos. No pude traducir.

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  7. Uma história de traição e violência sem que mostre totalmente nenhuma delas.
    Excelente, gostei imenso.
    Continuação de boa semana, caro José Carlos.
    Abraço.

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  8. rssss, peguei umas coisas nas entrelinhas muito engraçadas, apesar da violência horrorosa: surra de facão! Como será isso? Aqui a gauchada não é muito mansa, mas essa surra de facão... A Rute também não era lá uma flor.
    As mudanças frequentes de casa é genial, o rolo era grande demais para ficarem fixos. Esses são os tormentos da vida de cada um, uns mais, outros menos, e outros muito pitorescos, rs. Estou rindo porque você contou essa tragédia com muito humor. Mas assim a vida segue entre as sombras.
    Chegou o fim de semana, que seja com paz e alegria.
    Beijo, meu amigo.

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  9. Olá amigo José Carlos, este seu conto, tão bem contado levou-me a uma segunda leitura, pois queria entende bem tudo o que se passava com o menino esperto, que saiu para buscar água no chafariz, para uso da casa, e que logo viu, pelo gestual daquele homem que nadava desesperado, fazendo um sinal para que ele não o delatasse. O conto se completa com as outras personagens tão bem elaboradas.
    Gostei muito desse conto tão bem estruturado e com seu conteúdo social.
    Uma boa semana, com os cuidados com a saúde.
    Grande abraço.

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  10. Realmente sua escrita prende, amigo José Carlos.
    E, desta cena, não sobrou ninguém no pedaço. Já não havia condições emocionais em nenhum dos figurantes. Vidas!

    Beijos e boa semana!

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