quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Ao longe os búzios clamam

 


Aparentemente, era o que parecia, mas, por puro milagre, não por outra razão, ela estava imune. Assim, a moça acolhe o olhar, regulando as horas enquanto suas mãos se agigantam cortando os quiabos depois de lavados com água de cheiro. E saudosa, ela prova o tempero do verbo e explicita que ainda se comove com a nudez que o verbo incita. E das outras coisas em volta, pressente que tudo não passa de uma ânsia amorosa como se fosse um espectro de luz, pedindo-lhe que se aproximasse para que aprendesse a lição das mãos que se mobilizam a dizer-lhe que há séculos a lua persiste nas dunas do tempo ante a iminência, mais do que na ausência. 


(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Apetece-me

 


Agosto, parecia muito feliz, sem que soubesse que eu estava logo ali, na poltrona da sala, a observar pelo vidro o que acontecia do lado de fora, quando, por instinto, o gafanhoto se afastou da nuvem que sobrevoava o prédio e pousou na pequena horta da minha jardineira. E ficou quieto perscrutando em volta. Buscava reconhecer aquele admirável mundo novo. Ao que parece, ele não sente falta da turma, da nuvem, que pairava um pouco acima da minha cabeça. E apetece-me, por enquanto, vê-lo movendo suas patinhas por entre minhas hortaliças. Sem pudor. Vagarosamente, fareja com suas antenas o cheiro e sente o sabor de cada folha. E a sonoridade da palavra apetece me apetece, parece vir das nuvens. Deixo-a no céu da boca por alguns instantes. E depois digo em voz alta "apetece-me", enchendo o ar com suas vogais e consoantes. Deixo-a dissipar-se no ar. É uma palavra que não quebra espelhos e levita com a imensidão da lua quando há um rio noturno e os teus joelhos se dobram à minha pulsão. 


(José Carlos Sant Anna)

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Amor não é fala

 


No meio da tarde, em nossa casinha,

lá na Marambaia, hesito sentado

em meio da rede ao vê-la sair

do banho com os cabelos enrolados

na toalha; no meio da tarde, a cena

me deixa à deriva no meio de um mar

ardente e ninguém para dizer-me

que era amor a tentação

sempre tentada que no meu corpo estava

na poalha da imaginação pelo meio da sala. 


(José Carlos Sant Anna)