terça-feira, 17 de maio de 2022

Despedindo-se

 



a vida é o que a gente faz da vida.

vou aproveitar que a fronteira não está fechada e passarei para o outro lado da blogosfera. agradeço a todos os meus amigos que me acompanharam durante tantos anos.  

sou gratíssimo pela companhia.

um abraço para cada um em particular

e para todos  em conjunto

   

 


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Na bolha

 


Quinta-feira, 28 de abril. A onda ainda anda na junção da alegria e do prazer para fechar a tarde. E quão deserta está a rua com as gaivotas perdidas em cima do mar. Ir a Baden só depois que eu terminar de ler a série napolitana de Elena Ferrante, mas não estou esbanjando certezas por conta dos meus afazeres. E ainda que me digas que há um cisne negro no lago de Baden, fico a pensar se não há um anjo torto de beijos tímidos em Lisboa. Mas, nos intervalos, me aposso de uma gleba de versos de Sylvia Plath como um leitor solitário e saio com a cara para cima sem preocupar-me com os carros pelas ruas e avenidas a dizer-me que a poesia dela é impressionante, e que os motoristas têm olhos e boas maneiras. E para não se dizer depois, como sempre se faz em manchete na CNN: ele foi sem se despedir, sem bilhete ou um último beijo, antecipo que já aprendi a vigiar as horas, por isso nada detém minhas mãos na irradiante travessia quando a febre se anuncia e me acompanha desde as esquinas da infância. Enfim, confesso a qualquer japonesinha que apareça na minha frente durante as minhas andanças que são meras pontuações os medos e desejos ocultos. E, antes de degolar os risos de escárnio, antecipo que, por aqui, embora seja outono, parece que se está em pleno deserto, no Saara! E como faz falta nas telas do cinema um beijo em preto e branco.

José Carlos Sant Anna


terça-feira, 19 de abril de 2022

Escreve-me

 


Escreve-me uma história, dizes-me sentada na sala, no escuro, comendo uma salada, obcecada, por  sentir saudade da tua cidade, ou, então, tens medo de cair numa cilada. Conte-me uma história sadia dos seus dias vadios, que não me deixe vazia, dizes-me. Qualquer coisa sobre você em minha sede de quase nada! Ou quase tudo? Sei não, respondo-lhe. Sei não... Chove há quatro dias, chove, aqui, na Bahia, há quatro dias, águas turvas feito burcas. Então, dizes-me sentada no escuro, já degustada a salada em  prato raso, que não viu, mas sabia que não havia nada por dentro da chuva, e me perguntas se eu reparei nas crianças, que são água clara, ou que são um riso de fonte alva. E me perguntas o que eu fazia enquanto chovia. Coreografava? O que fazias? O quê? Coreografava o jeito que a videira dormia, pois sei que tu nunca reparastes que as videiras guardam no espelho das sombras os ecos da noite quando entoam festivas canções... – Coreografava? para mim, dizes apenas para massagear o meu ego. Para mim, responda? Danças em lago sem  fundo, sem enchente, onde tantas coisas amadas dão sinal de vida, quando teu sangue harmonioso navega nos veleiros dos livros, dos lagos e mares, livre, quando... as videiras, sim, as videiras...  Ah, é isso, eu seria o seu par enquanto os caminhos guardam os timbres dos nossos passos... Tu ainda não cansastes desse jogo estranho que inventei para tantas histórias com outro nome? Ah, conte-me outra e mais outra, pois achei essa muito sem graça, dizes-me, desencantada, como se eu te pedisse que a lesse em voz alta.! 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 12 de abril de 2022

romantismo audaz


 

para stella bastos, minha mãe,

que faria aniversário hoje


que legal! sapatos amarelos combinam com hilário? claro, combinam se não estiverem apertados nos pés (ou ainda que estejam, combinam, quase certeza de que combinam), ou se não forem, os sapatos, uma comédia em dois atos amarrada pelos cadarços, como se todos os humanos fossem humor da cabeça aos pés e estivessem no topo da estante, o que seria a única verdade do mundo, se estiver abarrotada de sapatos pequenos demais, mesmo que sejam amarelos sob o sol sociável do outono ou da carne viva da ficção iminente. é só uma palavra, hilário, só uma palavra, e carros, e ônibus, e motos, por todos os lados, é só uma palavra, hilário, algemada aos sapatos amarelos, sem fim, em delírio itinerante; são os cascos velhos aos pés, e a estonteante sensação de nunca tê-los abandonado, mesmo quando sentiu que a sua hora tinha chegado. e apertados, sobre os cascos velhos, os pés são só tremor e, confesso, sou um profano no altar do castelo de marfim, prisioneiro só de mim. que legal! hilário! 


(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 21 de março de 2022

3 X 4

 


A mulher vinda de outros trópicos
vê a neve em flocos caindo 
e se pergunta 
se ela cai à velocidade da luz.

A mulher em meio à neve,

a pele alerta ao frio,
se perde entre o passado e o presente. 

“Não se resiste à neve
quando a descobrimos sob os nossos pés

e se estamos em pleno gozo das férias”,

diz a mulher a si mesma.

 

É o seu modo, vida desacelerada,

de mostrar a alegria

como se fosse um animal no cio

 

A mulher vinda de outros trópicos

orgulhosa e sem pressa alguma

desliza sobre os esquis.


Agasalhada, 

como se falasse a outra pessoa

ela aproveita e ensaia novos versos

bem longe de onde ela morava. 


(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 16 de março de 2022

Em torno de Gandhi, Torga e Caymmi

 



Hoje, quarta-feira, com o som bem baixinho, ouço e releio pelo meio da tarde a transcrição de Gandhi e, por uma fração de segundos, me convenço até rebentar os peitos de que liberdade não é uma palavra perigosa. Limpo as mãos na bermuda enquanto me sopram aos ouvidos pitonisas, políticos, filósofos, sociólogos, antropólogos, artistas etc. que nenhuma palavra é perigosa. É o mau uso delas que faz mal, muito mal à saúde; é o mau uso delas que provoca alvoroço em qualquer território ou país, alinhado ou não alinhado ao leste europeu. Por isso, não preciso de um guarda-costas para as palavras supostamente perigosas como se elas fossem uma manada de búfalos na avenida central da minha cidade mal iluminada.

Quem sabe se noutro tempo, ou de vez em quando, sem nódoa no centro da toalha da mesa e o pão de forma boiando em uma das extremidades. Quem sabe? Ao perceber como as coisas acontecem, tomo uma sábia decisão. Indago-me muito longe das capoeiras – sem ignorar a minha pele exposta ao sol com a presença do indiano em gozo de férias no terminal de ônibus a fazer-me sinal para ajudá-lo na tarefa de pregar cartazes do “não à guerra” no abrigo de passageiros – se o Tenório, aquele galo faceiro de Miguel Torga, em Bichos, usaria toga para exibir sua superioridade à vizinhança. Por outro lado, frustrado com o desinteresse dos transeuntes, Gandhi faz caras e bocas e, bem seguro de si, como se fosse o Tenório, crista levantada, disse que não queria voltar para o seu quarto de hotel sem antes mergulhar na lagoa do Abaeté "arrodeada de areia branca, ô de areia branca”... Quem sabe noutro tempo, ou se noutra vida, eu não vou precisar soletrar meu nome para que o meu interlocutor possa entendê-lo, por enquanto, ouso dizer que os três se conheceram. Acredite, se quiser...

 

(José Carlos Sant Anna),

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Velho abrigo

 


Sempre em tensa pulsação,

as palavras. 

E não me canso de acariciá-las,

vivas e silenciosas,

beijando suas peles infinitas

ao trazê-las para o ar livre

 

Retenho-as nas mãos,

submersas,  

flexíveis,

são elas que me salvam

das sombras

e dos ventos fugidios.

 

As palavras,

rios sempre virgens

de assombros,

quando me abandono

em suas pernas longas. 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Prosaico


 

Incontroláveis, sombrios

sempre mais a perder    

 

E quantas palavras

imprecisas em farto prato

 

São os novos tempos 

tombando

sobre a minha cabeça

 

que só um parmegiana

sem desprezar meus afetos

me devolveria

a majestade perdida 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Utopias III

 


É inútil fingir      se acaso
as amêndoas nas minhas mãos fossem
sílabas catadas no chão do teu corpo
não estaria eu agora
limpando 
os meus óculos com a bainha da camisa 

                        (José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Utopias II

 


Agora 
quando ela passa
ouço os seus passos
e o balançar dos seus quadris
a dizer-me:
– sou mi nei ra,
mi nei ra mi nei ra mi nei ra! 

                     José Carlos Sant Anna


sábado, 12 de fevereiro de 2022

Utopias I

 


Inventas passos no cascalho

lavrando horas

e o pássaro

que tens na alma

deixa escapar da tua veia

o canto 
que se esvai

na delicadeza do rio

derramando o dobre 

de uma ânsia pressentida.


                    José Carlos Sant Anna

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Litania

 


Um abraço, uma vírgula e foges

com as mãos em brasa depois de exercer

o teu fascínio em outros rincões

e me deixares com a vida artificial

 

do teu olhar afogado em reticências.

Dói-me quando penso nas frases soltas,

ou do vento puxando-lhe os cabelos,

ou do rasgão do ventre das nuvens 

 

e da sonoridade da chuva nos vidros 

da janela ou nos cães ladrando à noite.

Seria tudo mais simples se este olhar

 

de quem parte apressadamente não tivesse

esquecido as longas noites de orgia

quando um estranho fogo nos consumia.


                      (José Carlos Sant Anna)


domingo, 30 de janeiro de 2022

As águas subiam pelas margens

 


Das tuas breves sílabas até o átrio fiz um álbum sem deixar de olhar para trás e colar, à revelia, algumas fotografias cobertas de um claro-escuro perfeito. E desejava-te. E surpreendia-me. E à beira de um feliz crepúsculo, disseste-me “muito bem”. E fui em frente porque a distração do poeta, igual a de um peixe pequeno, é saltar na água e, com a mão direita tocar fogo no fichário para ir apagando as digitais que o deixam inquieto. É genético, eu sei. E o poeta tem ganas de rei! E lá vou eu, como só os deuses sabem fazê-lo, destinos paralelos, e subo a escada da volúpia açulando teu corpo num encontro de línguas, pois ninguém se arranha nesse idioma porque o coração não mente quando sente o quebranto das suas mãos, e ainda, dissolutos, podem dançar na horizontal uma salsa em javanês. E porque eu sei deste chão, não resisti à rosa fascinada, como se fosse a sagração do mundo, e logo encho o teu peito de abraços e planto em tua boca meus beijos, antes, soletrando a palavra oceano enquanto meço a distância até a arqueada zona dos teus quadris e encontro entre os dois horizontes, um mar na terra, e outro além, muito além da ânsia de fogo para revelar as letras do alfabeto iconoclasta desse amor, se até aos teus grandes lábios eu chegasse.


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

As linhas de fuga

 


A chama do sol em diagonal e o ócio se conjugam,

se enamoram e ficam imersos. Não é união 

duradoura, estável. É nuvem passageira. 

Por outro lado, eu não consigo desvendar a sombra 

em que eles vivem no ar limpo da manhã porque 

eu não mereço essa onda de calor.

Sou um olhar frio, distante, para as notícias que leio.

Antes de as ler, já sabia envelhecidas. E nunca 

saberei em que momento me perdi, mas os restos 

de poeira da estrada ainda são visíveis, 

como o sabor do queijo de cabra, o fruto proibido, 

a relva molhada, as falésias. O labirinto, que me fazia 

subir e descer à toa com o peito aberto, sem prender 

a respiração, desapareceu do mapa, 

enquanto, arfando, desperta à minha curiosidade 

o brilho do olhar da lagarta no tronco da árvore. 

E entre o tudo e o nada, a palavra.

Sempre achei que estava de passagem ao sentir

o céu em sua transparência e que, sob a minha pele,

uma fonte lateja, o que me leva a escutar um rumor

desaparecido que, no cálice, é um vinho envelhecido 

e, também, é o meu silêncio. Portanto, reconheço 

que a moça tinha razão quando certa vez me disse:

A vida é um caminho sem volta


(José Carlos Sant Anna)


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O susto

 


Como explicar, antes que transborde a taça, um acidente em um jogo de mesa de futebol de botão na sala de visitas de uma casa modesta e que, por isso mesmo, sua dona está sempre claramente pensativa? E, antes de qualquer detalhe do acidente, é preciso dizer que não se sabe como a tal mesa de jogo chegou à casa de Tão Preto, tornando-o cativo desse “monstrengo”. Jogava bem o moleque. Pois, desde que a mesa chegou, ela foi motivo de desespero para a sua genitora, com ameaça velada de ingerir veneno para ratos e deixá-lo órfão. A todos. A ele e aos seus irmãos. Ah, o quanto ele aprontou! Uma enormidade! Não ria, não! Era a sua índole. Brincar. Mas a sua genitora, apesar dos pesares, ainda o preferia em casa...

Digo-lhe mais. Era só a mesa. Não tinha cavaletes para armá-la ou pés dobráveis. O que era, convenhamos, uma vantagem, pois, após os jogos, bastava recostá-la à parede para ocupar menos espaço na casa pequena: uma sala, dois quartos, uma cozinha, diminuta, um banheiro, cinco filhos, um cachorro e a água do mar a lavar a alma dos sete (não pensem que a conta está errada) e o assoalho da casa todos os dias.

Para armar a mesa de jogo, desocupava-se a sala. Era preciso usar as seis cadeiras que a adornavam. Eram duas em cada cabeceira e uma em cada lateral. Já entenderam o drama da dona da casa! Uma das razões para acertada decisão sobre o futuro do dono da mesa. A mãe resolvera na alcova, a sós, despachá-lo para um trabalho desde cedo. A sós, mas com o apoio moral de tios e tias. O moleque aprendeu a queimar as canelas dirigindo-se para o trabalho de office boy quando tinha treze anos. Mas aí é outra história, ou outra crônica.

No dia do acidente havia oito adolescentes na casa esperando a sua hora de jogar. Marcava-se dez minutos no relógio para cada partida. Ou quem marcasse um gol, continuaria dando as cartas. Ou sairiam os dois para a entrada de uma nova dupla. Era uma algazarra na casa. Detalhe importante. A casa era uma palafita. Uma casa sobre as águas do mar, nos manguezais. Alguns dos adolescentes moravam na parte aterrada, na parte rica daquela periferia. Todos se davam bem naquela quadra da vida: eram adolescentes e inocentes. E a ponte de madeira nunca foi obstáculo. Todos a atravessavam sem medo...  

Na frente da casa havia uma espécie de varanda, um avanço de um metro e meio, mais ou menos, tabuado, usado para pescar siri quando a maré estava cheia. Ou para os mergulhos, quando a mãe não estava em casa, ainda que ele estivesse cansado de saber que a água não era indicada para banhos. Mas adolescente, todo o mundo sabe, não respeita regras.  Transgredir é o verbo que ele mais gosta de conjugar.

Pois, aqueles, ali reunidos, estavam numa euforia para saber quem não sairia da mesa derrubando todos com um gol antes dos dez minutos regulamentados, quando, de repente, um deles saiu e chamou o pessoal para ver qualquer coisa do lado de fora. Juntaram-se na “varanda”, o tabuado cedeu e todos desabaram na lama. O susto foi grande porque a maré estava vazia. Foi um deus-nos-acuda! Toda a vizinhança acorreu à janela ou à porta da casa para saber o que tinha ocorrido. Nada de mortos, só feridos. Os donos da casa. Tão Preto e o seu irmão mais velho, com escoriações generalizadas foram socorridos. As ostras fincadas nas madeiras fizeram uma festa no corpo de ambos, sobretudo nas costas. Ainda carregam as cicatrizes como se fossem antiquíssimas tatuagens. Melhor assim, pensou a mãe. Não haveria "conversa fiada" com os pais dos amigos de Tão. 

Os dois foram levados ao Pronto Socorro para a prudente injeção antitetânica e antissépticos locais. O que foi feito. E Tão Preto não perdeu a viagem, pedindo duas ampolas da antitetânica para aplicar nas ostras, alegando que elas poderiam ter sido contaminadas com o sangue de ambos. E riu solenemente da cara de espanto do enfermeiro, que gaguejou: "antitetânica para as ostras?" 

(José Carlos Sant Anna) 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Assim foi, assim era...

Imagem da Internet


Todo mundo já reparou como os cachorros abanam o rabo para demonstrar quando eles estão de bem com a vida, quando eles estão felizes; e não precisa ter um, de qualquer raça, em casa, para sabê-lo. É fácil perceber o humor dos cachorros, observando-os na rua, em casa de amigos, a distância, pela janela do seu apartamento ou da sua casa, ou mesmo do portão, se sua casa for daquelas com um amplo jardim antes do acesso pela porta principal. Assim estava Tão Preto, superfeliz. Só não abanava o rabo porque não era um cachorro. E não sendo um cachorro, ele não tinha rabo.

Tão Preto estava feliz – é bom que todos o saibam. Sou eu quem o diz por que bem o conheço. E se bem o conheço, digo-lhes que os acasos acontecem na vida e nos deixam, na maioria das vezes, bem felizes. Um desses acasos seria a viagem que ele faria mal acabasse a festa na qual se encontrava folgazão. E como ele gostava de viajar. Paris, Londres, Stuttgart, Moscou. O negócio dele era pegar a mochila e botar o pé na estrada. Pouco lhe importava se a viagem seria para o subúrbio da sua cidade natal. Iria com prazer. 

O outro acaso é que ele tinha encontrado uma dama com a qual rodopiara pelos salões do clube a noite inteira, deixando-o literalmente nas nuvens. Não sei explicar a sintonia que houve com o casal assim tão de repente... E depois não há mesmo muito o que contar. 

"São dois pra lá, dois pra cá", a noite inteira, o que invejaria Elis Regina, juntamente com Aldir Blanc e João Bosco. Houve também intensos amassos pelos cantos do salão, ele achando uma delícia o fruto da amendoeira, que ele ainda não tinha provado, mas parecia ao alcance das suas mãos. 

Assim estavam, assim ficaram os dois pombinhos, quase por acaso, e apaixonados, trocando juras de amor pelos cantos do salão, como se já se conhecessem de outras vidas, quando o maestro, regendo os últimos acordes da pequena orquestra que alegrava o salão, desejava a todos um bom dia, o que foi respondido em uníssono pelos dançarinos cansados. E, em seguida, os músicos começaram a guardar os instrumentos. 

Tão Preto achou que a festa se prolongaria a dois por mais algum tempo. Puxou a dama para junto de si, comprimindo-a, ávido, num abraço de corpo inteiro, imediatamente correspondido, e disse:

– Fica comigo mais um pouco, Laurinha.

– Não posso, amor! Minha irmã e primos estão ali me esperando. Não posso chegar em casa sem eles.

– Que pena, meu bem! Nos vemos quando então – perguntou-lhe resoluto depois de um beijo apaixonado.

Olhando bem dentro dos seus olhos, com um sorriso tímido, disse-lhe:

– Espero você amanhã na minha porta às 19 horas, para lhe apresentar a meus pais – e deu seu endereço, ali bem próximo do clube, na Boa viagem. Fê-lo sem pestanejar. 

Parecia uma estranha coincidência, mas, para ele, soou como uma ironia, que ela morasse na Boa Viagem.

Tão Preto gelou. Teve ímpetos de dizer-lhe que quem gostava de porta era fechadura, mas se limitou a dizer o que aconteceria no dia seguinte às 7 da matina. E chegou a meter a mão no bolso para provar que dizia a verdade, exibindo o ticket de embarque, mas recuou, achando que tal atitude seria uma humilhação para ele, e se limitou a dizer com um ar muito sério:  

– Amanhã, eu não posso. Acompanho meu tio numa empreitada na vizinha cidade de Aracaju, e não sei se volto vivo.

Essa confissão, assim, abrupta, deve tê-la assustado, pois, como se fosse uma gata mexendo o rabo, pois os gatos, diferentes dos cachorros, quando sacodem o rabo é porque estão nervosos, ela mexeu os cabelos e não esperou qualquer explicação. Desapontada e, como se fosse uma habilidosa jogadora de futebol, esporte que ainda não tinha virado coqueluche para as mulheres, bateu de primeira na bola:

– Se não pode vir amanhã, não precisa vir outro dia, meu caro! – afastando-o deliberadamente com as mãos no seu tórax.



Tão Preto saltou da cama antes de o sol iluminar as cortinas da janela. O ônibus zarparia às sete da matina com destino à vizinha cidade de Aracaju.

Ele se levantou da cama cantando tão alto, fazendo uma inopinada festa, que a sua mãe saiu do sério para que ele a deixasse dormir, dizendo-lhe que a mochila estava pronta na sala, com tudo que ele iria precisar, perguntando-lhe em seguida, se ele não tinha juízo, se era hora de cantar, se ele queria acordar toda a vizinhança de madrugada! 

Galhofeiro como ele era, pegou a mochila e disse-lhe, beijando-a, para acalmá-la:

– Ciao, bambina! Quando eu voltar, conto-lhe uma história que você vai morrer de rir, mãe – intrigando-a. 

E saiu rindo do seu desencontro para encontrar-se com o tio, na Rodoviária. Ele já o esperava preocupado. Estava em cima da hora. 

 

(José Carlos Sant Anna)