segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O susto

 


Como explicar, antes que transborde a taça, um acidente em um jogo de mesa de futebol de botão na sala de visitas de uma casa modesta e que, por isso mesmo, sua dona está sempre claramente pensativa? E, antes de qualquer detalhe do acidente, é preciso dizer que não se sabe como a tal mesa de jogo chegou à casa de Tão Preto, tornando-o cativo desse “monstrengo”. Jogava bem o moleque. Pois, desde que a mesa chegou, ela foi motivo de desespero para a sua genitora, com ameaça velada de ingerir veneno para ratos e deixá-lo órfão. A todos. A ele e aos seus irmãos. Ah, o quanto ele aprontou! Uma enormidade! Não ria, não! Era a sua índole. Brincar. Mas a sua genitora, apesar dos pesares, ainda o preferia em casa...

Digo-lhe mais. Era só a mesa. Não tinha cavaletes para armá-la ou pés dobráveis. O que era, convenhamos, uma vantagem, pois, após os jogos, bastava recostá-la à parede para ocupar menos espaço na casa pequena: uma sala, dois quartos, uma cozinha, diminuta, um banheiro, cinco filhos, um cachorro e a água do mar a lavar a alma dos sete (não pensem que a conta está errada) e o assoalho da casa todos os dias.

Para armar a mesa de jogo, desocupava-se a sala. Era preciso usar as seis cadeiras que a adornavam. Eram duas em cada cabeceira e uma em cada lateral. Já entenderam o drama da dona da casa! Uma das razões para acertada decisão sobre o futuro do dono da mesa. A mãe resolvera na alcova, a sós, despachá-lo para um trabalho desde cedo. A sós, mas com o apoio moral de tios e tias. O moleque aprendeu a queimar as canelas dirigindo-se para o trabalho de office boy quando tinha treze anos. Mas aí é outra história, ou outra crônica.

No dia do acidente havia oito adolescentes na casa esperando a sua hora de jogar. Marcava-se dez minutos no relógio para cada partida. Ou quem marcasse um gol, continuaria dando as cartas. Ou sairiam os dois para a entrada de uma nova dupla. Era uma algazarra na casa. Detalhe importante. A casa era uma palafita. Uma casa sobre as águas do mar, nos manguezais. Alguns dos adolescentes moravam na parte aterrada, na parte rica daquela periferia. Todos se davam bem naquela quadra da vida: eram adolescentes e inocentes. E a ponte de madeira nunca foi obstáculo. Todos a atravessavam sem medo...  

Na frente da casa havia uma espécie de varanda, um avanço de um metro e meio, mais ou menos, tabuado, usado para pescar siri quando a maré estava cheia. Ou para os mergulhos, quando a mãe não estava em casa, ainda que ele estivesse cansado de saber que a água não era indicada para banhos. Mas adolescente, todo o mundo sabe, não respeita regras.  Transgredir é o verbo que ele mais gosta de conjugar.

Pois, aqueles, ali reunidos, estavam numa euforia para saber quem não sairia da mesa derrubando todos com um gol antes dos dez minutos regulamentados, quando, de repente, um deles saiu e chamou o pessoal para ver qualquer coisa do lado de fora. Juntaram-se na “varanda”, o tabuado cedeu e todos desabaram na lama. O susto foi grande porque a maré estava vazia. Foi um deus-nos-acuda! Toda a vizinhança acorreu à janela ou à porta da casa para saber o que tinha ocorrido. Nada de mortos, só feridos. Os donos da casa. Tão Preto e o seu irmão mais velho, com escoriações generalizadas foram socorridos. As ostras fincadas nas madeiras fizeram uma festa no corpo de ambos, sobretudo nas costas. Ainda carregam as cicatrizes como se fossem antiquíssimas tatuagens. Melhor assim, pensou a mãe. Não haveria "conversa fiada" com os pais dos amigos de Tão. 

Os dois foram levados ao Pronto Socorro para a prudente injeção antitetânica e antissépticos locais. O que foi feito. E Tão Preto não perdeu a viagem, pedindo duas ampolas da antitetânica para aplicar nas ostras, alegando que elas poderiam ter sido contaminadas com o sangue de ambos. E riu solenemente da cara de espanto do enfermeiro, que gaguejou: "antitetânica para as ostras?" 

(José Carlos Sant Anna) 


7 comentários:

  1. Antes de mais, caro Amigo JC, deixe que lhe diga do meu imenso prazer em ouvir esta bela versão do tema Moon River, que ouvi pela primeira vez na voz da "Bonequinha de Luxo", a querida e frágil Audrey Hepburn nos idos de 60 e tais, filme que adorei e revi já mil vezes na TV, o «Breakfast at Tiffany's». Por cá a tradução dos títulos dos filmes fica sempre diferente do original. 😋

    Pois quanto ao Tão Preto, quem preto nasce, preto morre, ou seja, quem é um adulto irrequieto e maroto, nunca poderia ter sido um miúdo pacato.
    Pronto...lá foi a 'galera' toda junto com o avançado e felizmente ainda cá estão para nos contar as peripécias.

    Esse enfermeiro era meio lerdo das ideias, não era? Então não viu logo que Tão Preto estava no gozo?

    Beijinhos e abraços, JC!! 😍

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  2. rsss, esse tão Preto era medonho desde a adolescência, não; desde a infância, creio.
    Fui lendo e imaginando a cena, todos os moleques, o campo de futebol apoiado nas cadeiras... que zorra!! Mas a mãe era legal, eu não sei se suportaria tal bagunça numa casa tão pequenina. Já me coloquei no lugar da coitada.
    Você trouxe a verdadeira época, era bagunça pura! Hoje, não vejo mais isso, brincadeiras da época, ingenuidade. Estamos na era dos infernais Smartphones! Coisa triste.
    Mas trocando de saco pra mala... voltou o 'Nas Dobras do Dia'?
    Ora, ora... Viva! Adorei.
    Beijo, professor!

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  3. O seu texto avisa: "Detalhe importante. A casa era uma palafita. Uma casa sobre as águas do mar, nos manguezais". Ora, com tanta algazarra na casa, um dia tinha que acontecer o tabuado ceder. Que susto! E Tão Preto, endiabrado desde criança, acabava sempre por ser o culpado de tudo... Pareceu-me estar a ver um filme, meu Amigo José Carlos.
    Continue a proteger-se.
    Um beijo.

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  4. Muy bonito texto y me encanto ese final. Saludos amigo.

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  5. O tempo foge Jcarlos , seu conto é apenas um retalho desses muitos fios invisíveis que ficam só na lembrança. São vários meus olhares na leitura do conto_ penso com ternura por onde passou o destino na vida dos meninos e quantos Tão Preto ainda brincam felizes nos alagados, indiferentes as inquietudes das mães zelosas!
    Gosto da nostalgia que me remete a uma também despreocupada adolescência, já vivida.
    Gosto muito de te ler,Jcarlos
    Um abraço.

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  6. JCarlos

    um texto que nos prende logo de início, muito bem escrito com todos os detalhes, que nos levam a imaginar como se de um filme se tratasse, e eu até imagino quem faria de Tão Preto.
    muita criatividade e muito talento para a narrativa, mas isso já nós sabemos.
    gostei muito de o ler meu amigo.
    boa semana e muita saúde e harmonia.
    beijinhos
    :)

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  7. Olá , poeta!!
    Que delícia de bagunça acontece nessa casa do teu relato! Penso que o melhor lugar do mundo é a nossa casa, e nela temos que ter toda a liberdade de usar e abusar das reuniões e diversões. Se a dona da casa não se importar é óbvio. E depois é colocar todo mundo pra colocar ordem nas dependências. srrsrsrsrsr... Beijinho, José Carlos .

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