terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Prosaico


 

Incontroláveis, sombrios

sempre mais a perder    

 

E quantas palavras

imprecisas em farto prato

 

São os novos tempos 

tombando

sobre a minha cabeça

 

que só um parmegiana

sem desprezar meus afetos

me devolveria

a majestade perdida 


(José Carlos Sant Anna)

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Utopias III

 


É inútil fingir      se acaso
as amêndoas nas minhas mãos fossem
sílabas catadas no chão do teu corpo
não estaria eu agora
limpando 
os meus óculos com a bainha da camisa 

                        (José Carlos Sant Anna)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Utopias II

 


Agora 
quando ela passa
ouço os seus passos
e o balançar dos seus quadris
a dizer-me:
– sou mi nei ra,
mi nei ra mi nei ra mi nei ra! 

                     José Carlos Sant Anna


sábado, 12 de fevereiro de 2022

Utopias I

 


Inventas passos no cascalho

lavrando horas

e o pássaro

que tens na alma

deixa escapar da tua veia

o canto 
que se esvai

na delicadeza do rio

derramando o dobre 

de uma ânsia pressentida.


                    José Carlos Sant Anna

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Litania

 


Um abraço, uma vírgula e foges

com as mãos em brasa depois de exercer

o teu fascínio em outros rincões

e me deixares com a vida artificial

 

do teu olhar afogado em reticências.

Dói-me quando penso nas frases soltas,

ou do vento puxando-lhe os cabelos,

ou do rasgão do ventre das nuvens 

 

e da sonoridade da chuva nos vidros 

da janela ou nos cães ladrando à noite.

Seria tudo mais simples se este olhar

 

de quem parte apressadamente não tivesse

esquecido as longas noites de orgia

quando um estranho fogo nos consumia.


                      (José Carlos Sant Anna)