segunda-feira, 21 de março de 2022

3 X 4

 


A mulher vinda de outros trópicos
vê a neve em flocos caindo 
e se pergunta 
se ela cai à velocidade da luz.

A mulher em meio à neve,

a pele alerta ao frio,
se perde entre o passado e o presente. 

“Não se resiste à neve
quando a descobrimos sob os nossos pés

e se estamos em pleno gozo das férias”,

diz a mulher a si mesma.

 

É o seu modo, vida desacelerada,

de mostrar a alegria

como se fosse um animal no cio

 

A mulher vinda de outros trópicos

orgulhosa e sem pressa alguma

desliza sobre os esquis.


Agasalhada, 

como se falasse a outra pessoa

ela aproveita e ensaia novos versos

bem longe de onde ela morava. 


(José Carlos Sant Anna)

quarta-feira, 16 de março de 2022

Em torno de Gandhi, Torga e Caymmi

 



Hoje, quarta-feira, com o som bem baixinho, ouço e releio pelo meio da tarde a transcrição de Gandhi e, por uma fração de segundos, me convenço até rebentar os peitos de que liberdade não é uma palavra perigosa. Limpo as mãos na bermuda enquanto me sopram aos ouvidos pitonisas, políticos, filósofos, sociólogos, antropólogos, artistas etc. que nenhuma palavra é perigosa. É o mau uso delas que faz mal, muito mal à saúde; é o mau uso delas que provoca alvoroço em qualquer território ou país, alinhado ou não alinhado ao leste europeu. Por isso, não preciso de um guarda-costas para as palavras supostamente perigosas como se elas fossem uma manada de búfalos na avenida central da minha cidade mal iluminada.

Quem sabe se noutro tempo, ou de vez em quando, sem nódoa no centro da toalha da mesa e o pão de forma boiando em uma das extremidades. Quem sabe? Ao perceber como as coisas acontecem, tomo uma sábia decisão. Indago-me muito longe das capoeiras – sem ignorar a minha pele exposta ao sol com a presença do indiano em gozo de férias no terminal de ônibus a fazer-me sinal para ajudá-lo na tarefa de pregar cartazes do “não à guerra” no abrigo de passageiros – se o Tenório, aquele galo faceiro de Miguel Torga, em Bichos, usaria toga para exibir sua superioridade à vizinhança. Por outro lado, frustrado com o desinteresse dos transeuntes, Gandhi faz caras e bocas e, bem seguro de si, como se fosse o Tenório, crista levantada, disse que não queria voltar para o seu quarto de hotel sem antes mergulhar na lagoa do Abaeté "arrodeada de areia branca, ô de areia branca”... Quem sabe noutro tempo, ou se noutra vida, eu não vou precisar soletrar meu nome para que o meu interlocutor possa entendê-lo, por enquanto, ouso dizer que os três se conheceram. Acredite, se quiser...

 

(José Carlos Sant Anna),

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Velho abrigo

 


Sempre em tensa pulsação,

as palavras. 

E não me canso de acariciá-las,

vivas e silenciosas,

beijando suas peles infinitas

ao trazê-las para o ar livre

 

Retenho-as nas mãos,

submersas,  

flexíveis,

são elas que me salvam

das sombras

e dos ventos fugidios.

 

As palavras,

rios sempre virgens

de assombros,

quando me abandono

em suas pernas longas. 


(José Carlos Sant Anna)