quinta-feira, 28 de abril de 2022

Na bolha

 


Quinta-feira, 28 de abril. A onda ainda anda na junção da alegria e do prazer para fechar a tarde. E quão deserta está a rua com as gaivotas perdidas em cima do mar. Ir a Baden só depois que eu terminar de ler a série napolitana de Elena Ferrante, mas não estou esbanjando certezas por conta dos meus afazeres. E ainda que me digas que há um cisne negro no lago de Baden, fico a pensar se não há um anjo torto de beijos tímidos em Lisboa. Mas, nos intervalos, me aposso de uma gleba de versos de Sylvia Plath como um leitor solitário e saio com a cara para cima sem preocupar-me com os carros pelas ruas e avenidas a dizer-me que a poesia dela é impressionante, e que os motoristas têm olhos e boas maneiras. E para não se dizer depois, como sempre se faz em manchete na CNN: ele foi sem se despedir, sem bilhete ou um último beijo, antecipo que já aprendi a vigiar as horas, por isso nada detém minhas mãos na irradiante travessia quando a febre se anuncia e me acompanha desde as esquinas da infância. Enfim, confesso a qualquer japonesinha que apareça na minha frente durante as minhas andanças que são meras pontuações os medos e desejos ocultos. E, antes de degolar os risos de escárnio, antecipo que, por aqui, embora seja outono, parece que se está em pleno deserto, no Saara! E como faz falta nas telas do cinema um beijo em preto e branco.

José Carlos Sant Anna


terça-feira, 19 de abril de 2022

Escreve-me

 


Escreve-me uma história, dizes-me sentada na sala, no escuro, comendo uma salada, obcecada, por  sentir saudade da tua cidade, ou, então, tens medo de cair numa cilada. Conte-me uma história sadia dos seus dias vadios, que não me deixe vazia, dizes-me. Qualquer coisa sobre você em minha sede de quase nada! Ou quase tudo? Sei não, respondo-lhe. Sei não... Chove há quatro dias, chove, aqui, na Bahia, há quatro dias, águas turvas feito burcas. Então, dizes-me sentada no escuro, já degustada a salada em  prato raso, que não viu, mas sabia que não havia nada por dentro da chuva, e me perguntas se eu reparei nas crianças, que são água clara, ou que são um riso de fonte alva. E me perguntas o que eu fazia enquanto chovia. Coreografava? O que fazias? O quê? Coreografava o jeito que a videira dormia, pois sei que tu nunca reparastes que as videiras guardam no espelho das sombras os ecos da noite quando entoam festivas canções... – Coreografava? para mim, dizes apenas para massagear o meu ego. Para mim, responda? Danças em lago sem  fundo, sem enchente, onde tantas coisas amadas dão sinal de vida, quando teu sangue harmonioso navega nos veleiros dos livros, dos lagos e mares, livre, quando... as videiras, sim, as videiras...  Ah, é isso, eu seria o seu par enquanto os caminhos guardam os timbres dos nossos passos... Tu ainda não cansastes desse jogo estranho que inventei para tantas histórias com outro nome? Ah, conte-me outra e mais outra, pois achei essa muito sem graça, dizes-me, desencantada, como se eu te pedisse que a lesse em voz alta.! 


(José Carlos Sant Anna)


terça-feira, 12 de abril de 2022

romantismo audaz


 

para stella bastos, minha mãe,

que faria aniversário hoje


que legal! sapatos amarelos combinam com hilário? claro, combinam se não estiverem apertados nos pés (ou ainda que estejam, combinam, quase certeza de que combinam), ou se não forem, os sapatos, uma comédia em dois atos amarrada pelos cadarços, como se todos os humanos fossem humor da cabeça aos pés e estivessem no topo da estante, o que seria a única verdade do mundo, se estiver abarrotada de sapatos pequenos demais, mesmo que sejam amarelos sob o sol sociável do outono ou da carne viva da ficção iminente. é só uma palavra, hilário, só uma palavra, e carros, e ônibus, e motos, por todos os lados, é só uma palavra, hilário, algemada aos sapatos amarelos, sem fim, em delírio itinerante; são os cascos velhos aos pés, e a estonteante sensação de nunca tê-los abandonado, mesmo quando sentiu que a sua hora tinha chegado. e apertados, sobre os cascos velhos, os pés são só tremor e, confesso, sou um profano no altar do castelo de marfim, prisioneiro só de mim. que legal! hilário! 


(José Carlos Sant Anna)